
O pigmeu do bulevar enterrou o último malandro
Alcione Araújo
Tenho um amigo que, como eu, é apaixonado por gente. Ele prefere os tipos atípicos, meio exóticos. E eu, os mais normais. O que me fascina é o mistério que os sóbrios escondem na alma. Aos folclóricos, prefiro os discretos empedernidos, que trancam os segredos no baú do coração. Que prazer cavar-lhes a alma, devassar-lhes o recôndito, dar à luz o indizível!
Meu amigo falou tanto de um tipo que o encantara, que fiz uma exceção. Fui conhecer o que ele chamava de o último malandro. Fazia ponto na Nossa Senhora de Copacabana com Santa Clara. Mal nos aproximamos, fiquei pasmo. Com uma perna dobrada, ele apoiava o pé na parede e assistia indiferente ao vai-e-vem do formigueiro humano na calçada e ao rush do tráfego nas pistas. Sapato bicolor, calça branca de boca justa, camisa preta com manga dobrada no antebraço, peito aberto exibindo a branca cabelama sobre a qual uma medalha de São Jorge pendia de uma corrente de ouro falso. E óculos escuros, embora anoitecesse. Às vezes subia num caixote, perscrutava os quatro lados do cruzamento e voltava ao seu lugar. Girando-a, enrolava e desenrolava uma corrente à volta do indicador. Na ponta da corrente, havia chaves, um pé de coelho, minicanivete e cortador de unha. Sussurrava ao ouvido das transeuntes. Já diante dele ouvimos o murmúrio cavo e lascivo: “Gostosa!”. Aquela figura extemporânea, que esqueceram de espanar-lhe a poeira, deveria ser tombada por um museu do patrimônio antropológico carioca.
Apresentados, estendeu-me a mão, sempre girando a corrente com a outra. O homem falava pelos cotovelos. Meu pasmo animava-o. Orgulhoso do seu passado, sentia-se humilhado de trabalhar como olheiro de camelô, incumbido de dar o alarme assim que avistasse o rapa. Resignava-se: “Tá tudo minguando, mas bom cabrito não berra. Fim de linha é que nem fim de feira. Só sobra xepa”. Dois cacoetes o agitavam. Ora apertava os braços em cada lado da cintura e, num arranco, ajustava a calça, ora puxava um pente do bolso de trás da calça e, do bolsinho de moeda, um espelho com o escudo do Flamengo no verso. Penteava-se com uma das mãos, avaliando-se no espelho erguido pela outra. A babá carnuda passou empurrando o carrinho com uma criança. Interrompeu a conversa, e a voz cava murmurou insinuante: “Sou mais nós dois, paixão. Não prefere empurrar um príncipe no lugar desse ratinho?”. Ela virou-se, avaliou-o, sorriu complacente e foi em frente.
“Nasci no Engenho de Dentro, doutor. Meu pai era estivador e PTB de carteirinha. Quando o dr. Getúlio finou, acompanhou o enterro comigo na cacunda. Chorava de soluçar. Queria esconder de mim, mas eu sentia nas pernas seu corpo tremer.” Parava, subia no caixote e vigiava as ruas. Descia e continuava: “Fui auxiliar de protético, mas o chefe não gostava de mim porque as mulheres me amavam. Juntei com uma lambisgoia, que foi “certinha do Lalau”, era fã da Emilinha e não saía do César de Alencar. Pra manter a casa, virei cambista de loteria. Andava o dia todo berrando que ia dar águia na cabeça. Voltava pra casa de garganta ardendo e sem um níquel. Fiquei rouco pro resto da vida. Fui ser apontador de bicho. Desconfiaram de mim e quase me mataram de pancada. Meu pai se aposentou, fui pra estiva na vaga dele. Me flagraram com a muamba que um cara pediu pra guardar. Peguei oito meses. Puxei cadeia junto com o Nelson Gonçalves, o cantor. Gente boa! Era gago, apelidaram de Metralha, pode? Todo fim de tarde cantava na cela “Boemia, aqui me tens de regresso”, lembra? O presídio ficava mudo de emoção. Vi até assassino chorar atracado nas grades. A detenção inteira propôs cada um puxar um dia a mais de cana pra diminuir da pena dele. Não toparam. Quando saí da cadeia, a certinha tinha sumido”.
O homem era uma catarata de lugar-comum. Mentia ou não? Pouco se me dava! Gostei da sensação de voltar a um tempo que não vivera. Meu amigo fazia perguntas e observava as minhas reações. Ele desceu do caixote, quase trombou com uma loura oxigenada, mas não perdeu a chance: “Tu é a nora que mamãe sonhou”, murmurou. E voltou à sua parede.
“Como ia dizendo, se malandro não tinha emprego, tinha viração, endereço certo e ponto fixo. Eu vivia no Capela. Lá conheci Jorge Veiga, Cartola, Pixinguinha, Noite Ilustrada, Moreira da Silva. Tudo poeta com samba no sangue. Hoje, só tem empresário da poesia. E jogador de futebol? Conheci Ademir da Guia, Dida, Escurinho, Pavão, um monte. Tudo artista da bola. Hoje, jogador só fala em milhão. De dólares! E bandido? Conheci o Lúcio Flávio, Mineirinho, Cara de Cavalo e outros. Tudo macho de palavra, bandido honrado. Hoje, traficante é empresário internacional. Tem empregado, segurança e fuzil estrangeiro, mas vive preso no morro, uns matando os outros. Até as meninas da noite. Dei cobertura pra muitas por um carinho na madrugada. Hoje, é tudo empresária com segurança pessoal.”
“Hoje, vivo com Marly, que tirei da noite. É a última mulher de malandro. Cozinha, lava e passa. Eu pago as contas e dou o que ela gosta. Malandragem acabou. Hoje, só dá bandido. Pigmeu do bulevar é bandido de araque. É cara sem-vergonha, sem moral, alcagüete, traidor e desonesto. Fura o olho do irmão pra tomar o emprego. Entrega o pai pra ficar bem com os tiras. Dedura amigo pra fazer média com o tráfico. O pigmeu do bulevar enterrou o último malandro. Mas o traficante vai enterrar o pigmeu do bulevar.” Sobe no caixote, olha e grita: “Olha o rapa!”. Na debandada geral, perdemos de vista o último malandro.
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