
A jovem Lapa carioca
Paulo Carrano* e Josiane Nazaré Peçanha**
Entre 2001 e 2003, realizamos uma pesquisa na região da Lapa carioca, tradicional território boêmio da cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo principal de conhecer e compreender o caráter social e educativo das práticas coletivas juvenis na região. O problema de pesquisa indagou sobre a configuração interna dos grupos da juventude, seus objetivos, necessidades e processos sociais comunicativos que se estabelecem no cruzamento entre as identidades coletivas juvenis e as práticas sociais estabelecidas no território investigado.
A privatização dos espaços na cidade e a violência urbana configuram novos padrões de sociabilidade relacionados com o isolamento social e o medo do outro. A pesquisa percebeu que, na Lapa carioca, os jovens são sujeitos de processos societários que expressam uma significativa e plural movimentação cultural de redefinição de espaços públicos e privados que, em grande medida, contraria a lógica dominante de privatização da subjetividade em nossas sociedades. Com a pesquisa, foi possível conhecer uma vida coletiva juvenil que, em seus significados sociais e educativos ampliados, configuram processos de produção social dos espaços urbanos no contexto daquilo que denominamos relacionamento entre juventudes e cidades educadoras (Carrano, 2003).
A velha Lapa foi rejuvenescida por ações coletivas de jovens de diferentes classes sociais e identidades culturais nas décadas de 1980 e 1990. Com precisão, Novaes e Mello (2002) denominaram a Lapa território símbolo das diferentes juventudes cariocas. Na pesquisa que coordenaram (“Jovens do Rio: circuitos, crenças e acessos”), de 800 jovens ouvidos, entre 15 e 24 anos na cidade do Rio de Janeiro, 86% conhecem a região, sendo que 36% desses afirmam já terem freqüentado a Lapa à noite para se divertir.
A Lapa tornou-se território privilegiado de uma vida cultural noturna na qual a rua é um elemento central da sociabilidade pública, algo significativo em uma cidade que, assim como em outros centros urbanos, vivencia a crescente privatização dos espaços de sociabilidade. A grande movimentação noturna fez com que a região se tornasse foco das atenções de diferentes tipos de mídia e também de algumas simplificações analíticas que a enxergaram apenas como um espaço harmonioso de convivência entre diferentes tribos juvenis num idealizado cenário que se identificaria com o renascimento da boemia e da malandragem carioca que afirmaram a identidade do lugar a partir da década de 1920.
Após estudo exploratório sobre a movimentação dos grupos na Lapa, elaboramos duas categorias centrais de análise para os grupos investigados: “circulantes” e “habitantes”. Os “circulantes” são os que freqüentam a região em momentos de lazer sem, contudo, constituir base territorial própria para a realização de atividades regulares, sendo os principais protagonistas das culturas da noite lapiana; já os “habitantes” se caracterizam por realizar atividades regulares de trabalho político, cultural, social ou religioso em um quadro de base territorial delimitada e relativamente duradoura. Essas categorias tornaram-se organizadoras do trabalho de pesquisa e orientaram a elaboração de instrumento de investigação (questionário semi-estruturado com 22 questões), que se orientou prioritariamente para o conhecimento da configuração dos grupos “habitantes”, menos visíveis no quadro da massiva ocupação noturna da região, porém com maior permanência e inserção nas redes sociais do território investigado.
Os questionários foram aplicados a informantes de 24 grupos “habitantes”. O total aproximado de participantes dos grupos identificados pela pesquisa foi de 854 sujeitos, sendo que 61% são homens e 39%, mulheres. Sobre a natureza das ações desenvolvidas, dez grupos são formalmente organizados (cinco ONGs e cinco empresas) e 14 são informais. Em relação à criação e à presença dos grupos na região investigada, há um equilíbrio de 50% entre os que foram criados no bairro da Lapa e os que se originaram em outros locais da cidade. O tempo de existência dos grupos variou entre o mínimo de sete meses e o máximo de 16 anos. Naquilo que se refere às finalidades da ação coletiva, e considerando que um mesmo grupo se dirige a objetivos variados, encontramos a seguinte freqüência de objetivos: artísticos (14), valorização da cultura popular (10), integração de jovens marginalizados (8), difusão cultural (13), qualificação profissional (7) e conscientização de jovens por meio da grafitagem (1). Sobre a natureza das redes de relacionamentos tecidas entre os grupos, a maioria (20 grupos) se relaciona, prioritariamente, com grupos de objetivos comuns; dois revelam relacionar-se com grupos de objetivos distintos e outros dois grupos admitem se relacionar somente com grupos de objetivos idênticos. Os participantes dos grupos residem em diferentes regiões da cidade. De 854 jovens participantes, somente 12 foram apontados como residentes no bairro da Lapa. As idades médias variaram de 14 a 30 anos.
A Lapa tornou-se um dos espaços mais conhecidos e freqüentados por jovens de diferentes origens sociais e orientações político-culturais, não apenas da cidade do Rio de Janeiro, mas também por jovens de outras partes do Brasil e do mundo. As juventudes encontram-se para atividades fortuitas de lazer ou para desenvolver ações coletivas regulares com orientações determinadas em híbridas combinações de trabalho e tempo livre. Identificamos que, além de não serem moradores e moradoras da Lapa, a maioria dos jovens atua também em outros bairros da cidade, evidenciando o caráter nômade dos praticantes dos territórios lapianos. Conflitos pela ocupação de espaços públicos e privados entre jovens moradores do bairro (lapianos de origem e estrangeiros) também foram verificados. A constituição predominantemente masculina dos grupos – além de expressar a divisão sexual que, em tendência, recolhe mulheres à casa e destina a rua aos homens – evidencia a mística de bairro associado à boemia da noite carioca. Recorrendo à lembrança do símbolo da região – os Arcos da Lapa –, consideramos que os grupos se apresentaram, em tendência, como arcos ou semi-arcos abertos ao relacionamento com o diferente em relação a si mesmo ou como pilastras que se fecham em identidades reiterativas. As coletividades juvenis criam formas, conteúdos comunicativos e aprendizagens sociais para expressar os vínculos – muitos deles conflitivos – com os espaços que herdam da cidade e os territórios simbólicos elaborados na dinâmica da existência dos próprios grupos da juventude.
Participação juvenil
A descrição e a síntese analítica da pesquisa realizada na Lapa carioca nos ajudam na compreensão dos sentidos de algumas das formas e conteúdos de participação juvenil presentes nos espaços de nossas cidades.
Ao tratarmos do tema juventude, devemos reconhecer os múltiplos pertencimentos biopolíticos relacionados com o ser e também os limites do poder ser jovem em nossas sociedades. Como expressão das possibilidades dessa múltipla, diversa e tantas vezes desigual vivência juvenil contemporânea se encontram os relacionamentos que os grupos juvenis estabelecem com os espaços urbanos. Ainda que reconheçamos a pressão exercida pelos processos sociais capitalistas em direção à privatização da subjetividade, o encolhimento das esferas públicas de participação social e a crise de sociabilidade pública provocada pelo medo do outro – e por que não dizer também de si? – nas cidades, é possível identificar significativas movimentações coletivas da juventude no sentido de experimentar novas e criativas formas de participação e experimentação dos espaços urbanos. A participação que freqüentemente se identifica com formas e conteúdos estéticos, expressivos e culturais se distancia, em grande medida, do imaginário daquilo que, durante muito tempo, no campo progressista, se considerou como sendo a “boa forma” da participação social e política da juventude.
As pesquisas sobre as práticas sociais e políticas da juventude vêm demonstrando, no Brasil e em outras partes do mundo, a desconfiança ou mesmo a negação dos jovens pelas formas tradicionais de participação, tais como as que são expressas pelos partidos políticos, sindicatos ou organizações estudantis, principalmente quando essas são dominadas por velhos vícios políticos de clientelismo, centralização e nepotismo.1 A despeito dos estereótipos de consumistas e alienados utilizados com pouca parcimônia por setores à direita e à esquerda do espectro político nacional, é preciso reconhecer que os jovens no Brasil desenvolveram interessantes e criativas formas de participação social. Muitas dessas práticas foram ignoradas ou mesmo desqualificadas por causa de seu caráter descontínuo, lúdico, periférico e pouco referido a idéias de transformações revolucionárias da estrutura social.
Ação coletiva
As novas formas e os novos temas pelos quais os jovens vêm se colocando na cena pública podem ser indicadores de um quadro de crise das formas tradicionais de participação, apontando para processos de mutação no campo da política, no qual a ação coletiva de jovens e movimentos sociais podem estar ocorrendo de formas múltiplas, variáveis e com níveis diversos de intervenção no social, muitas vezes de forma fluida e pouco estruturada (Carrano e Dayrell, 2003).
A não-orientação das ações coletivas juvenis contemporâneas para projetos utópicos de transformação social não significa necessariamente desorientação política ou social; muitas vezes, pelo contrário, expressa a elaboração de táticas de praticantes perante um mundo pleno de incertezas que transformou o futuro numa categoria abstrata. A década de 1990 nos deu o testemunho de como jovens marginalizados das periferias da cidade constituíram identidades móveis, ambíguas e flexíveis que emergiram e se desenvolveram em espaços periféricos da sociedade como resposta possível às crises estruturais do capitalismo. Sobre isso, podemos lembrar as identidades coletivas juvenis que se constituíram em torno do funk, do hip hop, do forró, do skate, do rock e de tantas outras práticas sociais e lúdico-culturais aparentemente despolitizadas. Não nos parece exagero reconhecer que os jovens, principalmente os mais empobrecidos, produzem seus próprios territórios com novas ferramentas comunicativas nas ruínas dos espaços da cidade capitalista que sobraram para eles.
Os jovens em seus coletivos criam formas e conteúdos comunicacionais para expressar os vínculos com os diferentes espaços da cidade: com os que lhe são oferecidos/impostos e também com aqueles que, transformados em territórios juvenis, expressam os espaços e tempos de autonomia conquistados diante do mundo adulto.
Os espaços urbanos se apresentam, assim, como campo de possibilidades comunicativas a serviço de determinados circuitos identitários. A cidade transformada em território coletivo se apresenta como extensão do próprio sujeito que se constitui numa mescla entre a identidade pessoal e a memória do próprio grupo de pertencimento, algo que Rossana Cruz (1995) denominou, ao analisar grupos populares de jovens roqueiros no México, de “geografia da aterrissagem”. O outro, nesse sentido, assume a sua face ativa de constituição daquilo que os jovens chamam de nós (nossa turma, galera, tribo etc.). A construção da identidade coletiva dos grupos pressupõe que os sujeitos se envolvam em processos de aprendizagem social nos quais se instituem lutas simbólicas entre compromissos individuais e coletivos. Nossa adulta ignorância ante esses simbolismos tecidos pelos grupos da juventude é fonte de mal-entendidos que geram intolerâncias acerca das atitudes, signos e, também, silêncios juvenis que podem nos parecer incompreensíveis ou mesmo inconcebíveis.
Direito à identidade
É possível reconhecer que a luta da juventude pelo direito à identidade é também, entre tantos outros sentidos, uma luta frontal contra os poderes instituídos que, tendo em mente um futuro adulto idealizado, procuram definir a identidade desejável para a juventude. No caso dos grupos juvenis populares marginalizados, a busca da afirmação de identidades coletivas expressa também a afirmação de poderes; práticas resistentes à desqualificação de quem já foi chamado com precisão por Loïc Wacquant (2001) de os condenados da cidade.
Para que uma identidade possa sustentar-se, ela precisa ganhar visibilidade pública, comemorar-se e celebrar-se, permitindo que as marcas exteriores apareçam e recordem ao mundo aquilo que se é individual e coletivamente. As diferentes marcas que se configuram nos corpos jovens são, assim, processos de representação de identidades em permanente trânsito, ou seja, objetivações simbólicas de processos móveis de identificação comunitária.
Considerar que os jovens têm constituído formas inovadoras de participação social não equivale dizer, contudo, que haveria em toda a ação coletiva juvenil um movimento social em evidência ou mesmo em latência.
O reconhecimento de vitalidade e legitimidade das atuais formas de participação social dos grupos da juventude deve ser acompanhado do esforço analítico de se tentar perceber aquilo que está em jogo nos conflitos entre os atores envolvidos que podem ou não se orientar para a geração de um movimento social. Concordamos com Alberto Melucci (1999) quando ele diz que antigas categorias de análise centradas sobre os movimentos sociais de recorte tradicional não nos permitiriam perceber a emergência do novo. Uma análise puramente centrada nos condicionamentos de classe, por exemplo, não permitiria a escuta e a leitura dos signos que proclamam as ações coletivas de novo tipo, muitas delas organizadas em torno de demandas de natureza cultural e simbólica. Isso significa dizer que novos movimentos reticulares e difusos se organizam com poderosos significados culturais não necessariamente anti-sistêmicos. Em um mesmo acontecimento coletivo, estão em jogo, entre os atores, múltiplos e variados significados analíticos. Por exemplo, em uma ação antagonista do movimento dos sem-terra ou sem-teto, podemos encontrar atores que fazem uma luta antagonista anticapitalista em conjunto com outros que vislumbram na mobilização a satisfação imediata de suas necessidades de moradia, produção e reprodução da existência. Os novos movimentos sociais não são ideologicamente lineares. São sistemas de ação, redes complexas entre os distintos níveis de ação social que se articulam na interseção entre as experiências cotidianas e as múltiplas formas possíveis de ação coletiva.
* Paulo Carrano é professor da Faculdade de Educação da UFF, pesquisador do CNPq e da Faperj e coordenador do Observatório Jovem do Rio de Janeiro (www.uff.br/obsjovem)
** Josiane Nazaré Peçanha é acadêmica de Pedagogia na UFF e bolsista de Iniciação Científica do CNPq/UFF (2002-2003) no projeto de pesquisa Corporicidade jovem: a Lapa carioca de muitos tempos, espaços e identidades culturais
Nota
1. Sobre o tema no Brasil, ver a pesquisa Juventude, Cultura e Cidadania, realizada pela Fundação Perseu Abramo, que, em 1999, entrevistou jovens de 15 a 24 anos em nove regiões metropolitanas (www.fpabramo.org.br/nop/nop.htm).
Referências bibliográficas
CARRANO, Paulo César Rodrigues. Juventudes e cidades educadoras. Rio de Janeiro: Petrópolis, 2003.
CARRANO, Paulo C.R.; DAYRELL, Juarez. Jovenes en Brasil. Trayectorias y travesías juveniles en el Cono Sur. Jóvenes – Revista de estudios sobre juventud. México, n. 17, 2003.
CRUZ, Rossana Reguillo. En la calle outra vez – Las bandas: identidad urbana y usos de la comunicación. México: Iteso, 1995.
MELUCCI, Alberto. Acción coletiva, vida cotidiana y democracia. México: El Colegio de México, Centro de Estudos Sociológicos, 1999.
NOVAES, Regina Reys; MELLO, Cecília Campello do A. Jovens do Rio: circuito, crenças e acessos. Comunicações do Iser, Rio de Janeiro, ano 21, n. 57, 2002.
WACQUANT, Loïc. Os condenados da cidade. Rio de Janeiro: Revan; Fase, 2001.
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