Camila Alves, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto

Uma das lideranças do MTST é uma jovem de apenas 24 anos. Camila Alves esteve à frente da ocupação do terreno da Volkswagen em São Bernardo, São Paulo, no último mês de junho. O episódio terminou com o despejo das famílias. Sem destino certo, elas estão em um galpão no Brás, na capital paulista. Camila está junto: "E continuo com a ocupação, esteja ela onde estiver. Essa é a minha responsabilidade".

A interpretação de que as ocupações poderiam desestabilizar o governo federal é logo descartada. "Queremos justamente o contrário, levar as demandas populares ao governo e fortalecê-lo" – afirma.

Apesar do engajamento na luta pela reforma urbana, ela não esconde que essa é apenas uma opção tática: "As reformas são instrumentos que mais imediatamente podem dar o mínimo de dignidade para um povo. Mas, se não pensarmos em mudança de sociedade, vamos estar vendendo ilusão".

Como começou sua militância?

Camila Alves – Comecei a militar a partir de atividades culturais, teatro, comunicação e expressão. Eu fazia parte de um grupo que atuava em um centro cultural ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT) de Guarulhos, mas fundado com autonomia e dirigido por um colegiado de diversas entidades, estudantes, jovens, pessoal de pesquisa, de partidos e de pastorais. Atendíamos pessoas vindas das favelas ou periferias. Eu tinha 17 para 18 anos de idade, agora tenho 24.

Nesse trabalho, tivemos um primeiro contato com o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra], que estava passando pela cidade e organizava a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, em 1997. Como já tínhamos o contato com as pessoas de periferia, fizemos o convite para que elas participassem da marcha. Elas foram e gostaram. Vimos que era possível fazer um trabalho mais direto com aquelas comunidades e, então, começamos a discutir a questão da regularização. Fomos à prefeitura de Guarulhos pedir que aquelas favelas fossem reconhecidas e urbanizadas. Desse modo, surgiu nossa primeira iniciativa de caráter urbano com periferia. E foi assim também que surgiu o embrião do que é hoje o MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto]. A partir desse trabalho de regularização, percebemos a necessidade de uma discussão muito mais ampla.

Então, o MTST surge da Marcha Nacional pela Reforma Agrária?

Camila Alves – Sim, em 1997. Muitos companheiros e companheiras do MTST vieram do MST e se juntaram a nós porque têm um perfil urbano. Ao passarmos por Campinas, algumas lideranças locais pediram ajuda para tentar organizar minimamente uma ocupação espontânea feita por 800 famílias, que acabou batizada de Parque Oziel, em homenagem a um jovem assassinado no campo.

A ocupação começou com 800 famílias, e, de repente, a coisa se adensou e chegou a 12 mil famílias. Consideramos esse assentamento como uma primeira experiência para refletir sobre uma metodologia de trabalho, mas não significa que nós a organizamos. Ela aconteceria de qualquer maneira, assim como acontecem várias ocupações espontâneas, várias favelas vão se adensando, crescendo. Mas foi uma experiência muito maior que a de Guarulhos. Passamos a ser também um agente construtor da causa. Até então, trabalhávamos em favelas que já eram ocupadas. Em Campinas, estourou justamente no período da marcha.

Logo depois, houve outra experiência importante, a Nova Columbus, uma ocupação em 1998, em Porto Feliz, a 110 quilômetros da capital paulista. O perfil das famílias que foram para a Nova Columbus era de moradores de rua. A esmagadora maioria vinda do Centro de São Paulo, do Brás, onde existem muitos albergues, cerca de 12. Fizemos assembléias, atividades culturais com esse povo da rua. Num primeiro momento, tentamos fazer com que fossem para o campo. Mas, quando as pessoas se vinculam numa região e produzem a sua relação social onde vivem, não é fácil fazer com que elas abandonem tudo isso. Algumas até ficaram no campo, mas a maior parte retornou à periferia.

Ainda que morem na rua, essas pessoas estabelecem um ponto de relação social. Quem mora no Brás não quer sair de lá para um ponto distante 80 quilômetros, 100 quilômetros ou até para outro centro periférico. É um lugar de grande comércio, com muito bico, muita economia informal, e também com muitos albergues. E é isso que se produz no Centro de São Paulo: muito albergue. Agora, o caráter desses albergues mudou um pouco. Antes era muito ruim do ponto de vista do atendimento. Somos contra albergues porque essa não é a solução. Mas, hoje, está se tentando dar um caráter mais diferenciado, mais humano.

Você é de Guarulhos?

Camila Alves – Sim, sou de Guarulhos. Nasci em São Paulo, morei em Minas e voltei para Guarulhos. Mas, no último ano, mudei para São Bernardo do Campo.

Como sua família vê sua participação política?

Camila Alves – No começo, como era uma atividade cultural, não era tão preocupante. Eu tinha meu trabalho, estudava. Quando comecei a me envolver mais, começou uma série de cobranças e preocupações. Uma grande preocupação sempre foi o risco de ser presa ou acabar morta. E tenho consciência de que isso pode acontecer. Encaro esses anos todos como um processo de convencimento. Mas, se hoje minha família ainda não está 100% convencida, está menos preocupada.

Sua família não faz parte do MTST?

Camila Alves – Não. Tenho mãe e duas irmãs mais velhas – uma é professora primária, a mais velha, e a outra faz alguns trabalhos artesanais. Meu pai morreu em 2002; ele era bancário, depois atuou em serviços de transportes, mas ficou doente e, nos últimos anos, não conseguiu mais emprego. Depois de 22 anos trabalhando, por causa da doença e também da idade, ele ficou desempregado mais de quatro anos. Por causa disso, quando morreu, minha mãe não recebeu nada. Hoje, está tramitando um processo na Justiça, mas sabemos que o INSS vai recorrer eternamente para não pagar.

Que tipo de trabalho você fazia?

Camila Alves – Fiz tanta coisa, fui vendedora, trabalhei em escritório... O último emprego que tive foi há mais de dois anos como atendente de farmácia, mas nesse tempo eu já militava bastante. Tinha que trabalhar para ajudar em casa, mas dividia o tempo entre o trabalho e a militância. Mas se chega a um patamar, a um grau de envolvimento, que não dá mais para conciliar. Qualquer militância é assim, engloba uma ação afetiva, e o envolvimento é cada vez maior.

Você tem um cargo no movimento?

Camila Alves – Eu não diria "cargo", sou da coordenação estadual do movimento em São Paulo. Somos um colegiado de pelo menos 20 pessoas que atuam no estado de São Paulo. Os eixos que trabalhamos são as cidades de Guarulhos, Osasco, São Bernardo e Santo André. Além do trabalho de realização das ocupações nessas áreas, somos um movimento que busca interlocução com outras periferias. Em qualquer favela, os problemas são os mesmos: despejo, reintegração de posse, reurbanização, diversos projetos. E tentamos pelo menos acompanhar tudo isso. A questão da moradia é muito abrangente, nossa luta não é única e nem mais correta que outras.

Quais os estados que já têm base do MTST?

Camila Alves – Nossa base é no estado de São Paulo, mas temos interlocução no Rio de Janeiro, em Sergipe, no Rio Grande do Norte, em Pernambuco e em Belo Horizonte. Ainda não há colegiados, alguns nunca tiveram uma ocupação, mas já existem pessoas atuando no âmbito das moradias. Mas, no fundo, é o mesmo movimento, atuamos em conjunto. Tentamos atender a todas as propostas de trabalho que surgem dos outros estados, mas é muito mais difícil para quem, como nós, não tem recursos para viajar e fazer todo esse contato, essa pesquisa. Nem sempre telefone e Internet resolvem. Temos que ver qual é o projeto, o que está acontecendo de fato nesses outros estados. Pernambuco, por exemplo, eu considero uma questão grave. Mas ainda assim o estado de São Paulo é bem mais grave: é onde se concentra a riqueza do Brasil, a riqueza inteirinha passa por São Paulo.

Quantas ocupações o MTST tem?

Camila Alves – Tínhamos quatro, mas, com o despejo que sofremos no terreno da Volkswagen, ficamos com três áreas, todas no estado de São Paulo. Em Campinas, o Parque Oziel, que foi o primeiro. Em Guarulhos, o Anita Garibaldi. Em Osasco, o Lamarca. Em São Bernardo, ficava o Santo Dias, no terreno da Volkswagen.

Como é a infra-estrutura nos assentamentos?

Camila Alves – No início, não chega água, não chega luz. São barracos de lona, em uma primeira etapa. Depois, diante da discussão, fazemos um planejamento da divisão dos lotes em padrões iguais para todos. Temos conseguido uma assessoria da FAU/USP [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo] para fazer alguns projetos. No Anita, eles ajudaram um pouco. E estão ajudando no Lamarca também.

No Anita, já fizemos as fossas, canalizamos valetas, e a água já foi ligada. A luz está sendo regularizada pela Eletropaulo. Todos pagarão uma taxa mínima, todo mundo pagará igual. A questão é que, no assentamento, 80% da população é desempregada. A maioria ainda sobrevive do bico, muita gente cata papelão, vive do ferro-velho. Estamos discutindo um projeto para implantar uma cooperativa de reciclagem, mas ainda falta parceria para levar à frente a idéia.

Não existe uma coordenação nacional?

Camila Alves – Não somos uma coordenação nacional, ainda estamos nos articulando para poder compor uma direção do movimento. O estado de São Paulo saiu com um projeto diferenciado dos outros estados porque é um projeto de assentamento urbano. Por exemplo, no Anita Garibaldi, essa ocupação que fizemos em Guarulhos em maio de 2001, não pensamos o espaço urbano só em relação à moradia. Temos um projeto que gostaríamos que fosse modelo para outras ocupações: uma área grande que resolvesse não só a questão da moradia, mas que permitisse às pessoas uma horta de subsistência. E também que, dentro dessas habitações urbanas, houvesse uma área social, escola, projeto de farmácia viva, secretaria, galpão de formação de cultura e tudo o mais que a comunidade achar necessário e que o espaço permita fazer.

No Anita, já temos uma hortinha; não é uma grande produção. Mas, minimamente, nos permite ter essa vinculação com a agricultura. Temos discutido com o MST, por exemplo, produção de sementes e como conseguir uma assessoria a projetos. Também temos uma escola de alfabetização de jovens e adultos, usando o método Paulo Freire, que conseguimos com a prefeitura. Formamos ainda um grupo de agentes comunitários de saúde, e esses agentes fizeram um cadastro dos idosos e das grávidas. Com esse tipo de levantamento, podemos cobrar da prefeitura um atendimento mais direcionado. Claro que não é 100% perfeito, são pessoas que nem alfabetizadas eram, passaram pela alfabetização e estão fazendo curso de agentes de saúde. Outra coisa que conseguimos é a farmácia viva, que não faz apenas doação de remédio, mas pretende fazer minimamente uma medicina preventiva. Conseguimos isso, mas queremos viabilizar mais ainda. E, dependendo da realidade local, a necessidade muda. Nem sempre será uma horta, mas pode ser uma escola, um galpão de formação e cultura, outras experiências. Nós primamos pela área social. Isso é o que chamamos de assentamento rururbano.

Vocês pensam em comercializar os produtos dessa horta?

Camila Alves – Não, a horta seria mais para subsistência. O que pensamos é em propagandear os produtos da reforma agrária na cidade, um canal de expansão da reforma agrária sem intermediários. Mas um projeto desses tem inúmeras dificuldades para se viabilizar. A primeira é que estamos lidando com dois movimentos que não têm como arcar com todos esses custos, tanto o MST como o MTST. Caberia uma discussão mais ampla com outros órgãos competentes para viabilizar essa idéia, mas, até agora, não houve possibilidade.

Em Osasco, o Lamarca tem um caráter diferenciado, o espaço de produção agrícola deverá ser bem menor, mas terá uma área social, e isso é fundamental. Não dá para pensar que todo assentamento rururbano terá produção agrícola. Não que seja um sonho impraticável, mas tudo depende também da área, das condições do solo etc.

O MTST dá alguma ajuda de custo às famílias?

Camila Alves – Não. Mas, no projeto de agentes de saúde, conseguimos uma ajuda de custo para essas pessoas que estão no trabalho comunitário. O agente de saúde é formado em parceria com a prefeitura, que paga R$ 200 por esse trabalho. O mesmo acontece com quem está trabalhando com o projeto de alfabetização. A prefeitura implantou essa parceria e cobre os custos com os educadores. O resto não tem nenhuma ajuda de custo, sobrevive fazendo bico e das doações de sindicatos e outras entidades.

O Anita é uma ação exemplar do movimento?

Camila Alves – É o primeiro modelo. Chegamos a ter 12 mil famílias nesse assentamento. Isso foi em 19 de maio de 2001. São 250 mil metros quadrados, e, hoje, está na fase do que chamamos de pré-assentamento. Quando houve a ocupação, eram em seis brigadas com 300 grupos; cada grupo com 40 famílias. Essa é uma metodologia de trabalho que temos adotado. Escolhemos as equipes de trabalho, coordenadores, equipe de saúde, de infra-estrutura etc. Nem todas dão certo porque nem todo mundo tem entendimento, quem está acostumado a fazer ocupação espontaneamente não adere a uma metodologia tão facilmente, mas ela é necessária para que se tenha o mínimo de organização. Foi assim que fizemos no Anita e é essa nossa metodologia. Só assim é possível fazer reuniões com as famílias e discutir coisas práticas.

Em média, existem quantas pessoas por família?

Camila Alves – Normalmente, a média é de quatro, mas sabemos que, na periferia, às vezes é muito mais. Algumas pessoas não têm filho, mas outras têm dez, oito, seis...

E a questão da educação das crianças?

Camila Alves – Em um primeiro momento nas ocupações, temos cuidado para que a criança, se estiver matriculada em uma escola, não a abandone. É melhor que fique onde está. Depois de dois ou três meses, e dependendo do período do ano letivo, o pessoal do setor de educação começa a cadastrá-las para pleitear vagas em escolas mais próximas. Enfrentamos a questão da falta de vagas, mas temos conseguido matriculá-las em escolas próximas aos assentamentos. Só não fizemos assim em São Bernardo, pois foi muito pouco tempo. Mas, no Lamarca, em Osasco, e no Anita, em Guarulhos, conseguimos vagas para todas as crianças. No Anita, conseguimos até que as crianças fossem vacinadas no próprio assentamento; não é um posto de saúde, mas a vacinação está garantida.

Antes da ocupação, o que havia no Anita?

Camila Alves – Era um terreno abandonado, uma das periferias mais violentas de Guarulhos, na Zona Leste, e servia de local para desova de cadáver e lixão. Fazia muitos anos que esse terreno estava parado, era particular. Pertence – ou pertencia – ao dono do Primeiro Cartório de Notas de Guarulhos e tinha uma série de irregularidades. Além do mais, a área estava no perímetro urbano e era cadastrada no Incra. Estava devendo vários impostos. Quando ocupamos o terreno, já tínhamos algumas informações, sabíamos quem era o dono e que ele estava inadimplente, mas não sabíamos que estava cadastrado no Incra.

Junto com a questão das ocupações urbanas – seja em prédios, seja em terrenos –, queremos deflagrar um processo de conscientização. Se a área não cumpre uma função social, uma forma de chamar a atenção disso é a ocupação. Então, uma ocupação também serve para denunciar que os equipamentos urbanos na realidade estão ociosos.

No Centro de São Paulo, por exemplo, existem muitos prédios vazios. E a maior parte está nas mãos dos bancos, principalmente do Itaú e do Unibanco, e está servindo à especulação imobiliária.

Quantas famílias vivem hoje no Anita?

Camila Alves – Atualmente, quase 2 mil famílias. É um processo de resistência e de seleção. Quando uma ocupação ocorre, sabemos que, no meio, existem pessoas que não precisam. Por isso, fazemos os levantamentos, as pesquisas. O compromisso do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto é com aquelas famílias que não são incluídas em nenhum projeto habitacional e que têm renda até três salários mínimos. Não chega a ser um critério, mas o compromisso maior que temos é com essas famílias. Claro que não vamos excluir uma família que, junta, recebe quatro, cinco, seis salários. Sabemos que os projetos estaduais e federais só contemplam famílias a partir de cinco ou oito salários mínimos. Mas priorizamos, por exemplo, famílias que têm só um membro trabalhando, pagando aluguel, alimentação, despesas com filhos etc.

Por que a situação é mais grave em São Paulo?

Camila Alves – No estado de São Paulo, está havendo uma reação muito forte do governo Alckmin em relação aos movimentos. Qualquer movimento que queira se organizar, o Alckmin está despejando, pedindo prisão para todo mundo. Quando ocupamos o terreno da Volkswagen, em São Bernardo, em 19 de junho deste ano, fomos ameaçados o tempo todo. É bom esclarecer que aquela não era uma área concedida para a Volkswagen, mas para a Varan Motores, na década de 50, pelo Juscelino Kubitschek. Da Varan passou para a Sinca, da Sinca passou para a Chrysler. A Volkswagen comprou a Chrysler e, junto, ganhou essa concessão de terra. E a Volkswagen deve mais de R$ 5 milhões em impostos para o município. Quando ocupamos a área, a Volkswagen estava em um processo de demissão de 4 mil operários. A empresa queria que os trabalhadores aceitassem o projeto da autodemissão, eles não queriam aceitar... Era esse o cenário.

Ao mesmo tempo que ocupamos a área em São Bernardo, o pessoal do Centro de São Paulo ocupou cinco prédios de uma vez. O governo Alckmin mandou o seguinte recado: "Entrou? Sai que é despejo". De lá para cá, houve despejo e prisão no Pontal do Paranapanema, despejo de beira de pista, despejo nos cinco prédios ocupados pelo pessoal do Centro... Eles ocuparam a Secretaria de Habitação, mas não houve nenhuma negociação. Estão em um galpão lá na Zona Leste totalmente deslocado do Centro de São Paulo, bem longe.

O governo Alckmin conseguiu mandado de prisão para várias lideranças do MST que organizaram ocupações. Algumas dessas lideranças estão hoje na Cocampi, uma produção agrícola, uma cooperativa. Ou seja, quem ocupa, quem organiza leva um processo. É uma tentativa de criminalizar os movimentos sociais. E por que aquela mudança do Zé Rainha e do Mineirinho para um presídio de segurança máxima?

Você mora em alguma ocupação?

Camila Alves – Estava morando no terreno ocupado em São Bernardo. Agora, estou despejada junto com as famílias que lá estavam. Durante mais de um ano, morei no Anita Garibaldi. Não dá para ficar fazendo discurso sem estar com o pé na realidade. Os militantes da organização têm que morar nos acampamentos e nos assentamentos. Fui para São Bernardo antes da ocupação para fazer o trabalho de discussão com a comunidade local durante um ano. Construímos a ocupação do Santo Dias, fomos despejados, e eu continuo com a ocupação esteja ela onde estiver. Essa é a minha responsabilidade.

Como foi o despejo?

Camila Alves – Foi um dia difícil. Eram 900 policiais, se não me engano. Nem imaginávamos que havia também atiradores de elite, mas estavam lá. Até hoje, não há um canal de negociação. Simplesmente fomos despejados. Pior ainda, fomos escorraçados do município de São Bernardo e, agora, estamos na cidade de São Paulo. Conseguimos, inicialmente, um espaço na quadra da Gaviões da Fiel, a torcida do Corinthians. Agora, estamos em um galpão no Brás.

A ordem do governo Alckmin é reprimir e criminalizar os movimentos sociais. Optamos por sair pacificamente e, quando já estávamos deixando o Santo Dias, a polícia nos agrediu e impediu que fizéssemos uma manifestação na rodovia. Ficaram feridas 26 pessoas, e outras tiveram seus pertences extraviados para outras cidades.

No processo da Volkswagen, tivemos nosso direito cerceado. Quando houve a primeira liminar de despejo, conseguimos cassar a liminar porque a Volks não conseguiu comprovar a posse. Ela só tem o domínio da área, ou seja, estava utilizando o local. E faz mais de dez anos que aquele terreno está abandonado e servindo apenas à especulação imobiliária. Lá funcionava antigamente a fábrica de caminhões da Volks, que foi transferida para Taubaté. Com base nesses fatos, conseguimos cassar a liminar. Mas os advogados da Volkswagen saíram imediatamente com o acórdão publicado em mãos para poder recorrer. No espaço de dez dias, houve a liminar de novo. Mas nós não tivemos o direito de ter o acórdão, ele não foi publicado. Com o acórdão, poderíamos recorrer no Supremo Tribunal Federal ou na Alçada Civil de São Paulo.

Na verdade, ninguém quer peitar uma multinacional, e a prefeitura não demonstrou interesse nenhum em nos ajudar. Ainda que essa multinacional demita 4 mil funcionários, ainda que ela despeje 4 mil sem-teto, nada disso importa. O que importa é que a Volkswagen do Brasil fique lá no território de São Bernardo, mesmo que esteja dando mais prejuízo do que lucro para o município. Até porque quem deve R$ 5 milhões de impostos não está dando lucro nenhum para o município! Quem especula sobre aquele terreno também está dando prejuízo não só para o município, mas para os municípios que pagam impostos, que têm que zelar por isso. É o IPTU que mantém a estrutura urbana!

Não houve negociação depois do despejo do terreno da Volkswagen?

Camila Alves – O que houve foi uma série de jogadas políticas. Tivemos reuniões com representantes do governo federal, e o secretário nacional de Habitação nos disse que, se saíssemos da área, haveria disposição do governo federal para nos ajudar. Ele disse que o governo federal entraria com um terço dos recursos, o estadual com mais um terço e o município com o restante. Os três poderes juntos tentariam uma solução, compra de terra ou outros mecanismos legais.

Fazer reunião é uma boa forma de o governo se eximir das responsabilidades. Ninguém pode falar que o Estado não sentou para negociar, ninguém pode falar que o Estado não foi benevolente e que, pelo menos, não ouviu a proposta. Mas, na realidade, não tinha disposição de resolver o problema. E, de fato, não resolveu.

Todos os assentamentos ainda estão em litígio?

Camila Alves – Sim, ainda não conseguimos a posse definitiva de nenhum. Em Campinas, o Parque Aziel é o que está mais adiantado; praticamente virou bairro. O Anita e o Lamarca estão em fase de pré-assentamento, ainda existe pendência judicial. Mas sabemos que isso demora. Há favelas que estão 15 anos brigando por um título. Para nós, o essencial, além do título, é que não sejamos despejados. O essencial é conseguir que a ocupação se mantenha, se territorialize, que nós consigamos o projeto de área social. Depois disso, é muito mais difícil de ocorrer o despejo. Despejar escola e posto de saúde é uma perda muito grande, não é tão simples. Quanto mais projeto nós implementamos, mais difícil fica para haver um despejo.

Mas nem sempre o governo pensa assim. Existem áreas que já estão ocupadas há dez anos e ainda assim existem as ações do Estado para reintegração de posse. Esbarramos na Justiça, que só é cega para algumas coisas. Por que não titular favelas que estão há dez anos brigando por isso? Por que não reurbanizar? Claro que o custo de reurbanizar é um pouco maior, mas o custo social de um despejo de uma área antiga é muito maior. Mas o governo não pensa nisso quando vai pedir uma reintegração de posse de uma área que está ocupada há dez anos. A reurbanização de favelas é sempre um problema grave. Ao mesmo passo que o governo está reurbanizando uma área, está despejando outra bem mais antiga. Há casos em que são despejadas quatro ou cinco famílias, fazem aos poucos. Para onde elas vão?

Como você vê a política habitacional do país?

Camila Alves – Quem produz moradia para todo o país é a CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano]. É uma empresa estatal e dispõe de R$ 700 milhões para moradia. É a CDHU que manda, não é o Ministério das Cidades. Mas os critérios exigidos não contemplam aqueles que mais precisam. A pessoa precisa ter uma declaração de renda, existe fila de espera de sete, dez, 15 anos. Nas ocupações, há pessoas que participaram desses programas e desistiram porque nunca foram chamadas. E o modelo de construção é sempre um cubículo: um banheirinho, um quartinho, uma cozinha e uma salinha, acabou. É uma verticalização das favelas, não tem um espaço de lazer, não tem nada de social nos projetos da CDHU.

São os conjuntos habitacionais construídos pelo Brasil inteiro. E tem a questão da inadimplência: se, depois de dez anos pagando, o mutuário fica desempregado e não consegue pagar, ele é despejado. Simplesmente repassam o cubículo para outra família que está na fila de espera.

Mas e o Ministério das Cidades?

Camila Alves – Espero que o Ministério das Cidades ouça mais os movimentos que têm projetos e que queiram discutir a questão habitacional dentro de parâmetros que não sirvam apenas à especulação imobiliária. Que não seja apenas o modelo estatal a ser discutido. Não se pode discutir moradia apenas; tem que tratar do espaço de convivência. Não se pode esquecer de que a periferia precisa de lazer e de cultura. Há uma série de coisas que vêm dar um grau de civilidade ainda maior para quem está marginalizado na sociedade, desempregado, excluído de tudo. Espero que o Ministério das Cidades discuta com os movimentos com essa amplitude.

Como você vê a posição do PT? José Genoíno, o presidente do partido, condenou as ocupações.

Camila Alves – Somos um movimento autônomo. Temos uma afinidade maior com a esquerda por uma questão de método de trabalho popular. Mas vamos ser sinceros: o Partido dos Trabalhadores tem uma história de 20 anos e, durante esse tempo, vem galgando seus degraus. No início, mais popular, mais combativo; durante o processo neoliberal, se houve algumas contradições, as discussões já não eram mais tão massivas nem tão revolucionárias assim. Hoje, o PT é governo, está com vários projetos que, infelizmente, ainda não conseguiram vingar. O Fome Zero é um exemplo. E isso é culpa só do PT ou também das forças econômicas e políticas que estão dentro desse governo? O governo é uma coalizão: parte de esquerda, parte de centro, parte de direita. E, para o PT chegar ao governo, não teria como ser diferente. Lula e o PT chegaram ao poder, mas não têm o poder efetivo para realizar algumas coisas concretas.

Mas ninguém pode ignorar que, há 20 anos, os movimentos sociais vêm discutindo com o PT. De certa forma, os movimentos sociais também são agentes construtores dessa ascensão do PT ao governo. Assim, cabe aos movimentos sociais tentar contribuir e polarizar um pouco essas questões, ou então ficaremos reféns de interesses econômicos e políticos de um pequeno grupo dentro do governo. Não temos vinculação com partido nenhum, não temos ninguém nosso no governo. Não oferecemos ninguém, não quisemos nenhum cargo. O que queremos é discutir com o governo, queremos ter um canal de interlocução. E sabemos que há uma predisposição do governo para esse debate, embora haja também uma liderança do PT que demonstra falta de entendimento sobre os movimentos sociais. De qualquer forma, é bem diferente do que acontecia no governo FHC, que não falava com ninguém, mal recebia os movimentos sociais.

Então, cabe aos movimentos sociais fazer pressão?

Camila Alves – O que queremos são canais de interlocução. Se o Lula resolverá ou não, é outra discussão. Não depende só da nossa vontade política. A questão é que há grupos econômicos que estão emperrando os projetos sociais. Além do Fome Zero, que não avança, existe também a reforma agrária. Do jeito que está sendo conduzida, é óbvio que não será a reforma agrária que os camponeses estão esperando. É uma reforma agrária de mercado, não resolverá problema nenhum de camponês. São dois exemplos que precisamos desse canal de interlocução, queremos discutir com o governo.

Mas o que de pior está acontecendo atualmente é uma avaliação totalmente equivocada de que os movimentos querem desestabilizar o governo. Queremos justamente o contrário, levar as demandas populares ao governo e fortalecê-lo. Queremos revelar que os conflitos urbanos e agrários estão se engrandecendo. A UDR está se armando com fuzis, com metralhadoras, e ninguém faz nada. O governo demite, por exemplo, o Marcelo Rezende do Incra, mas não controla a UDR. O que vejo de preocupante nesse cenário, tanto rural como urbano, é que pode estourar algo como o que aconteceu em Eldorado de Carajás, só que em proporções bem maiores.

São conflitos muito sérios e não podem mais ser ignorados. Quem está armado no campo? São os camponeses ou os fazendeiros, representantes de grupos econômicos? Na cidade, a situação também é delicada. Na favela Heliópolis, em São Paulo, uma ocupação espontânea que é a maior favela da América Latina, houve, em setembro deste ano, numa reintegração de posse, 16 feridos e um morto, um senhor que estava chegando do trabalho e foi assassinado pela Polícia Militar em frente à ocupação. Essa não é uma ocupação do MTST, mas serve para mostrar como está a situação nas cidades, especialmente em São Paulo.

Há muita repressão policial no dia-a-dia das ocupações?

Camila Alves – Em relação às nossas ocupações, no Anita e no Lamarca não sentimos tanto. Ainda assim, o Lamarca sofreu um despejo violento. A maior repressão mesmo foi na ocupação do terreno da Volkswagen. Primeiro, por causa daquela questão do jornalista que faleceu, e, segundo, pela forma como a mídia construiu esse fato. Da forma como foi divulgado, parecia que nós havíamos assassinado o jornalista ou que, no mínimo, éramos interlocutores da morte do jornalista. E foi bem diferente: ele morreu em frente do assentamento e em conseqüência de um fato que não estava relacionado à ocupação, ou seja, um assalto.

A mídia também criminaliza os movimentos sociais?

Camila Alves – Acaba construindo um senso comum. Se a Globo faz uma reportagem com determinado discurso, o restante da mídia televisiva vai atrás. No caso da morte do jornalista em São Bernardo, foi isso que aconteceu: houve um discurso único de que a morte estava ligada à ocupação. Fomos taxados de bandidos e oportunistas. E nessa construção da mídia, há uma clara jogada política. Ela diz que somos invasores, critica o Lula porque colocou o boné do Movimento dos Sem-Terra...

Isso para a sociedade é muito ruim, porque é uma forma de criminalizar os movimentos. Não é ruim apenas a divulgação disso nos veículos de comunicação, mas principalmente a tentativa de incutir isso na mente de pessoas que têm justamente o perfil com o qual trabalhamos. Pessoas que moram nas favelas ou em áreas de risco e que, obviamente, assistem a esses veículos de comunicação e acabam falando: "É tudo bandido mesmo". E todas elas vivem no mesmo patamar que nós.

Há também a falta de ética no meio jornalístico. Por exemplo, na ocupação da Volkswagen, houve jornalista infiltrado e que passou a noite lá, querendo descobrir não-sei-o-quê. O acampamento é aberto! O Jornal da Tarde colocou duas jornalistas infiltradas, e, na reportagem delas, dizia-se que "há pessoas aqui que não precisam, que têm casa". O que queriam descobrir? Sabemos que no início da ocupação há de tudo, existem oportunistas mesmo. Já disse que é um processo de seleção e resistência. E isso não é feito em pouco tempo. Em 20 dias não dá para querer mapear toda a ocupação, querer organizar tudo; não existe isso.

Também sabemos que a Globo pagou as pessoas para que dessem entrevista. Isso é falta de ética! Como você extrai algo de uma pessoa pela condição em que ela está? Se você não tem R$ 1 no bolso e vem um sujeito oferecendo R$ 20, sua fala não vai estar condicionada?

Mas há um outro lado. Um jornalista foi demitido, afastado e acusado de ter feito uma versão bonita. Depende do profissional com quem estamos lidando, mas depende ainda mais do grupo econômico a que está ligado o meio de comunicação. Se for o caso, simplesmente trocam o jornalista.

Como vocês lidam com a questão da violência e do tráfico de drogas nas ocupações?

Camila Alves – Em Guarulhos, por exemplo, estamos na Zona Leste, considerada uma das mais violentas da periferia. Por mais que nós tentemos, ainda não diminuímos esse grau de violência. Nosso projeto é para as famílias que querem se adequar a ele. E, para o tráfico de drogas, nosso projeto não é interessante. Ele vive daquelas condições que estão na favela.

Outra questão é que, pelo que vejo na periferia, os adolescentes estão cada vez mais envolvidos com as drogas por causa da falta de emprego. São questões econômicas que estão levando a isso. A maioria desses jovens não consegue trabalho em outro lugar. Fala-se muito de violência, de criminalização, de tráfico de drogas, mas não se fala em alternativas para esses jovens. Além de tudo isso, é preciso não esquecer que o tráfico de drogas é ligado a forças internacionais, não age sozinho.

O tráfico já tentou impedir uma ocupação?

Camila Alves – Não, nunca tivemos essa experiência. Tivemos conversas com pessoas que são ligadas ao tráfico, discutimos, mas nunca houve esse embate. Nas áreas que ocupamos, normalmente, não há esse tipo de problema. Existe, sim, tráfico ali perto, do lado, na sua frente. Vemos muita coisa, mas não polarizamos com o tráfico. O que existe de problema real é o grau de violência que hoje está instalado em qualquer periferia. Tendo ou não ocupação, precisamos achar uma forma de conviver melhor e de produzir uma relação social entre as famílias, com as comunidades.

Um caminho que estamos tentando para combater essa violência é o da experiência teatral, com o grupo do Augusto Boal, o Teatro do Oprimido, e com outro grupo que faz teatro de rua. Mas é uma iniciativa que está bem no início. Eles estão fazendo teatro no Anita e no Lamarca. Mesmo no pouco tempo em que ficamos em São Bernardo, tivemos atividades culturais bem importantes.

No país, quantas pessoas não têm moradia ou têm moradias muito precárias?

Camila Alves – Estima-se que são mais de 6 milhões de famílias. São pessoas que realmente não têm moradia, não têm para onde ir ou estão em área de risco. Mas, se somarmos os casos de coabitação familiar, o número seria ainda maior. São indivíduos, pai, filho, filha, netos, tios, sobrinhos, todos vivendo no mesmo cômodo. Muitos pagam aluguel. Não sei qual a metodologia usada, mas, segundo o IBGE, 56% da nossa população vive em coabitação.

No caso da moradia precária, favelas e outras áreas de risco, chega a ser 24%. Não sei como o IBGE trabalha, mas sei que, a cada ano, o problema aumenta. Mais parentes vão morar na casa de outros parentes, existem mais áreas de risco, mais favelas. É uma coisa frenética. Na favela, a cada dia vemos um barraco novo.

O que precisa ser feito logo é uma pesquisa mais profunda dessa questão. O Ministério das Cidades, ou outros órgãos, deveria fazer um mapa da exclusão social, o que vem sendo produzido no quesito reforma urbana e moradia no Brasil. É necessário ter uma pesquisa que revele por que, em algumas áreas, a coisa se adensa mais que em outras, como é o caso do Rio, São Paulo, Belém e Pernambuco.

Outra questão é o aluguel. Ele não poderia ultrapassar um terço da renda da família ou do membro que o paga. Se passar de um terço da renda, é considerado ônus excessivo. Mas o que vemos é o aluguel aumentando 140%, 500%, 600%.

E o Estatuto da Cidade?

Camila Alves – É uma lei muito progressista, mas depende do Plano Diretor do município, depende de Lei Orgânica do município, depende de uma série de questões burocráticas para poder ser implementado. Em alguns casos, o Estatuto da Cidade esbarra em artigos da Constituição que emperram que ele seja implementado na prática. Por exemplo, a concessão real de uso, o usucapião. Para as áreas de favelas, já poderia ter sido concedido o usucapião. Se isso fosse feito, seria mais fácil pensar em uma urbanização. São coisas que já deveriam ter sido feitas, mas que esbarram em mil dificuldades. O Estatuto é bom, mas até agora não é aplicável.

Qual é a relação do MTST com os outros movimentos sem-teto?

Camila Alves – Não temos tanta articulação assim com outros movimentos, mas todos se conhecem. Com alguns acaba havendo maior proximidade. Do ponto de vista da metodologia, temos algumas diferenças. Nem todo movimento se baseia na construção de uma nova sociedade, na questão urbana pensada a fundo. Alguns ficam só na questão da moradia como um fim em si mesma. Nosso movimento luta por uma reforma urbana. As pessoas têm que ter acesso aos equipamentos urbanos de maneira mais racional: escola, saúde, educação, transporte e moradia.

E mesmo a reforma urbana não é suficiente para mudar uma sociedade. Na verdade, vai apenas permitir um avanço na melhoria da vida de pessoas que vivem em periferias, excluídas e que não têm acesso a nada. Mas colocá-la em pauta já é um início. Para nós, mesmo a ocupação deve ter um caráter a mais. É preciso que produza um certo grau de consciência. Queremos avançar além da questão da moradia. Para a periferia, por exemplo, o transporte é ruim, às vezes não chega. Pessoas vão para o trabalho, do trabalho para a escola e da escola para casa sem o mínimo de dignidade no acesso ao transporte. Não têm dignidade no acesso à saúde, à escola etc. É a precarização desses equipamentos urbanos condicionada à precarização de vida dessas pessoas.

Mas a relação com o MST é bem próxima.

Camila Alves – Sim, temos uma relação muito próxima, às vezes, fazemos alguns cursos e atividades juntos. Também temos proximidade com o MTD [Movimento dos Trabalhadores Desempregados]. Estamos em uma coordenação de movimentos sociais com experiência nacional que vem discutindo as nossas dificuldades e o que podemos fazer em conjunto. A coordenação agrega o MTST, MST, MTD e a CMP [Central de Movimentos Populares].

Já conseguimos cursos de extensão universitária para os movimentos sociais, como está acontecendo agora na USP. Em Minas, também há outro curso acontecendo. Estamos estudando Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Caio Prado, vários pensadores. Os cursos duram um ano e meio. Essa articulação com as universidades tem sido muito boa.

E outros movimentos na América Latina?

Camila Alves – Temos contato com o pessoal do Chile, do movimento dos sem-casa, e com o movimento dos piqueteiros da Argentina, que atuam nos bairros. Há também um contato interessante com os sem-teto dos Estados Unidos. Eles fazem ocupações de prédios e fazem também um trabalho cultural nesses prédios; são moradores de rua, não têm casas mesmo. Até com os sem-teto do Japão já trocamos mensagens pela Internet.

E com as ONGs há alguma articulação?

Camila Alves – Há um distanciamento em relação às ONGs. Na realidade, ficou uma coisa mais técnica, ligada à assessoria de projeto. Não tem muita articulação política. Claro que há militantes que hoje estão em ONGs, e aí o elo se estabelece. Mas o que em geral acontece é essa assistência técnica. Discutir política é mais difícil. Estamos afastados e acho que deveríamos retomar essa ligação histórica das ONGs com os movimentos sociais.

É claro que precisamos de projetos, é claro que precisamos de assessoria. Mas também precisamos discutir juntos questões fundamentais para a sociedade. Um papel que considero hoje fundamental para as ONGs seria discutir mais abertamente na sociedade a criminalização que vêm sofrendo os movimentos sociais. Sair em defesa mesmo! As ONGs têm esse caráter de discutir com a sociedade em geral. Por exemplo, quando ocorrem prisões de líderes de movimentos, por que as ONGs não se manifestam? Por que não denunciar as arbitrariedades para a sociedade em geral?

As ONGs deveriam trabalhar o senso crítico na sociedade. Claro, nem todo mundo vai concordar com os métodos do MTST ou do MST, mas quem concorda com os assassinatos no campo e na cidade? Quem concorda com a violência e com a barbárie? Por meio das ONGs, essas questões tinham que estar sendo discutidas, elas são o canal certo para se atingir a sociedade. As ONGs deveriam fazer com que toda a sociedade se sentisse parte desses problemas e também parte da sua solução. Os movimentos sociais muitas vezes têm dificuldade em levar o debate para sociedade; então, esse seria um papel das ONGs. São elas que deveriam informar e debater o que está acontecendo, por exemplo, em relação aos transgênicos, à Alca etc.

E o Fórum Social Mundial?

Camila Alves – Acompanhei os três anos do Fórum. No primeiro, havia uma clara proposta de discutir, com movimentos sociais e várias outras organizações, que outro mundo possível queremos. No segundo, percebi um caráter mais festivo, muita discussão e poucas propostas. No terceiro, se outro mundo é possível, ele será só dos europeus!

Mas, como proposta, acho que está correto. O debate tem que ser assim mesmo, tem que haver diversidade de idéias e de representação: ONGs, entidades, movimentos sociais etc. Mas confesso que sinto falta dos partidos, embora essa seja uma opção desde o início.

Também acho que, depois da primeira edição do Fórum, deveria ter sido feito um levantamento para saber quais foram as propostas implementadas e se deram certo, o que mudou em um ano e, também, as análises da conjuntura nacional e internacional. Esse balanço é necessário.

Vamos ao Fórum com a expectativa de que haverá propostas e nem sempre elas são claras. Mesmo quando chegamos a uma proposta em comum, não sabemos como implementá-la. Sinto falta do lado prático do Fórum. O problema não é a pobreza de propostas, pelo contrário, existe uma riqueza de discussões muito intensas, mas não se pensa na implementação. Desse jeito, vamos ter Fórum todo ano e nenhum resultado prático.

Se só a reforma urbana não é suficiente, que outras saídas políticas poderiam ser pensadas para a sociedade?

Camila Alves – A reforma agrária, por exemplo, se for pensada de maneira adequada, reduzirá o inchaço das cidades. Não é só dar terra para o camponês, queremos discutir por que não acabar com intermediários que ganham em cima dos camponeses. Um produtor de leite ganha R$ 0,04, e um intermediário ganha R$ 0,30, R$ 0,50!

A reforma urbana vem para fazer o que nunca foi feito, mas não é só isso. Ninguém fala dos quilombolas ou das terras indígenas. Existem famílias inteiras de quilombolas em Ubatuba que perderam suas terras. São cinco praias que pertenciam aos quilombolas e hoje, no local, existe um megaprojeto imobiliário. Existem índios pancararus em São Paulo, no meio da favela. Esse povo deve ter sua identidade cultural garantida. Há um outro patamar de discussão que nem a reforma urbana nem a reforma agrária resolverão.

Devolver a terra dos quilombolas para seus netos e bisnetos é algo que já deveria ter sido feito. Não sei se será na cidade que os pancararus viverão, mas é preciso discutir a questão. Não pode ser qualquer lugar! Vi índios em favelas com problemas de alcoolismo e outras doenças... Eles já perderam parte da sua identidade e querem resgatá-la. Que identidade cultural estão impondo a esses grupos? Nenhuma reforma dará conta disso tudo.

Numa sociedade capitalista, por mais reformas e mudanças que sejam feitas, o modo de produção será sempre concentrador, gerador de riqueza. Sempre haverá a exploração da mais valia. Para acabar realmente com a miséria e com a fome, precisaria acabar primeiro com outras coisas na sociedade capitalista. A primeira delas seriam os meios de produção; da forma como estão, não há reforma que dê jeito.

Por isso, entendemos reforma como algo mais imediato. No plano estratégico, é preciso mudar a sociedade. Não seremos eternamente reformistas. Não seremos os reformistas que estão por aí imperando na Europa. E já vimos que não solucionaram problema nenhum, ao contrário, ele se agudizou. O problema é que, com a perspectiva das reformas, sindicatos, entidades e movimentos costumam se deixar amenizar. Mas as reformas são, na verdade, instrumentos que mais imediatamente podem dar o mínimo de dignidade para um povo, fazer avançar o grau de consciência. Mas, se não pensarmos em mudança de sociedade, vamos estar vendendo ilusão.

Você está falando de socialismo?

Camila Alves – Sim, da socialização dos meios de produção nas mãos de trabalhadores. Esses meios de produção não podem ficar nas mãos de grandes grupos econômicos. Como será isso? É o que temos que pensar, discutir, bater as cacholas. Será uma cooperativa? Uma associação de trabalhadores? Lênin já falava que o socialismo é uma transição para o comunismo. Para se chegar a uma sociedade sem classe, sem Estado, sem miséria, é o comunismo. Mas é preciso passar pelo socialismo.

A cada dia se produz mais e, quanto mais rápido, melhor! Uma exploração da mais valia, uma precarização do trabalho e desemprego em massa, progresso, tecnologia e uma massa de trabalhadores excluídos, tudo isso só aumenta a concentração de riqueza. A indústria automobilística é um bom exemplo: produz, produz e não vende. Mas a ânsia da produção é enorme. Avançamos tanto no patamar tecnológico que a empresa produz sem ter para quem vender. Não é todo mundo que troca de carro a cada ano. Mas todo mundo precisa de comida, de roupa... Precisamos de indústrias que estejam mais aliadas à questão do desenvolvimento, o que não vemos muito no país.

As indústrias deveriam estar voltadas para bens de primeira necessidade e duráveis. Outra coisa é esse consumismo desenfreado onde se compra de tudo, compra-se a pessoa, compra-se o ar, a lua, o sol... O ser humano está perdendo um caráter essencial: viver em harmonia com a natureza.

São essas as coisas que queremos discutir. Pode parecer sonho, mas não é tão distante assim. Para isso, o povo tem que ter esclarecida toda essa discussão. Tem que ter esse trabalho de conscientização para entender que é necessária essa mudança estrutural.

E você acha que o povo já começa a ter essa consciência?

Camila Alves – O povo – e destaco a eleição de Lula – já vê a necessidade de uma mudança. Mas está acreditando em uma mudança institucional. Quando o povo perceber que não é institucional, que precisamos lutar por saúde, moradia, emprego e educação, as coisas vão mudar. Não será pela via institucional que teremos todas essas respostas. A sociedade precisa se organizar, ou o grau de miséria será muito maior.

Vejam a Argentina. Classe média, hoje, é classe pobre. Uma coisa interessante é que na Argentina todo mundo saiu às ruas, classe média, pobre. Houve uma junção tática dessas classes. E, no Brasil, o Plano Real vai até quando? Na época do Fernando Henrique, ocorreram sucessivas crises da moeda. Hoje, o real é apenas centavos do dólar. Não há como manter uma economia associada ao capital financeiro somente. Precisamos de um capital industrial mais forte no país. Isso é fundamental até para sermos um país soberano. Sendo somente aliado ao capital financeiro, é melhor esquecer.

O que você pensa da experiência na ex-URSS?

CAmila Alves – Foi superburocrática. Muitos trabalhadores acabaram decepcionados. Na URSS, eram pessoas do partido. E penso que essa questão precisa ser mais discutida. Não vejo somente um partido, não vejo só movimento social. Podemos pensar em algo que componha multiidentidades.

Se for um partido reformista, não serve. É melhor esquecer. É capaz de nos matar lá na frente, é verdade. Vimos isso historicamente. Rosa Luxemburgo é um bom exemplo. Mas há outros: partidos na América Latina que assassinaram, que viraram ditadores, outros que esmagaram movimentos populares. São vários os casos que servem de exemplo.

Não era o modelo que estava errado, era o método. Isso implica uma discussão de método, de que concepção de Estado nós queremos. Quando falo em meio de produção nas mãos de trabalhadores, não estou excluindo o Estado, mas que nele estejam pessoas da classe trabalhadora. Tem que ser revolucionário tanto no método como na condução. Porque, se não queremos um partido reformista, um partido burocrata ou um movimento burocrata, só pode ser uma coisa: revolucionário.

Uma revolução?

Camila Alves – Nosso entendimento de revolução é no sentido de transformar a sociedade. O capitalismo não tem mais para onde se expandir, não tem onde investir. Todo mundo sabe que o capital está em crise: desemprego, bens que não duram, demissão, precarização do trabalho, aumento da miséria. São as mazelas do capitalismo.

A cada crise do capital, surge uma maneira de ele se manter. Mas as crises estruturais já são freqüentes, cíclicas. Antes havia progresso, quedas nas bolsas não eram comuns. Hoje, há uma crise de modelo, crise estrutural. O capital não tem mais para onde ir.

A cada dia que passa, menos pessoas na sociedade podem usufruir dos bens de consumo do capitalismo. Além das que nunca puderam, cresceu o número das que foram excluídas. A classe média perdeu seu poder aquisitivo, hoje é classe pobre. Basta não conseguir ter um carro, uma casa, não ter um bom emprego, acabou, já está na classe pobre.

Chama a atenção você ser jovem, mulher e estar num papel de liderança.

Camila Alves – Mais da metade do colegiado do MTST é composta por mulheres. Em um coletivo de 15 a 20, somos mais de dez. Isso faz, sim, uma grande diferença. Temos um peso no movimento. Exemplo disso é que, na ocupação do terreno da Volkswagen, quatro mulheres, inclusive eu, assumiram a organização. No Anita, uma ocupação onde só havia árvore e toco velho, as mulheres coordenavam junto com os homens. Mas quem tomou a frente fomos nós. As mais idosas que não podiam trabalhar organizavam o café, mas várias pegavam no cabo da enxada, discutiam como planejar, como cavar valeta, qual a pauta de debate com a comunidade.

Mas é tudo um processo. Fomos assumindo tarefas aos poucos, de acordo com a experiência e a responsabilidade. No início, mesmo participando da coordenação, discutindo com a base e fazendo política com sindicatos e entidades, havia alguns setores que não assumíamos, às vezes até por medo. Quando comecei, tinha medo de tudo. O fato de eu ser jovem e mulher assusta um pouco, é verdade. Até os repórteres se surpreenderam lá em São Bernardo. Pessoalmente, acho que devemos ter cada vez mais mulheres.

Nos sindicatos, por exemplo, ainda não é possível ver tantas companheiras discutindo. Normalmente, os dirigentes são homens. Quando nós chegamos para discutir, se isso é sinal de machismo, não importa. Terão que se sentar e discutir com mulheres.

Acredito que, para o MTST, a experiência tem sido muito boa. Temos valorizado a responsabilidade do ser humano, do ponto de vista do compromisso. Um jovem de 17 anos que tenha consciência suficiente será valorizado. Não importa se é homem ou se é mulher.

No Brasil, especialmente nas famílias mais pobres, nem sempre a figura masculina está presente.

Camila Alves – Quem cria, cuida e educa são as mulheres. Infelizmente, nem sempre o homem está no papel de construir minimamente a condução da família. Falta um grau de participação do homem na vida da mulher e da vida familiar. A mulher não gera sozinha, mas parece que é. Sabemos de casos em que o marido vende a terra, o lote, a casa...

O homem tem seu comprometimento com trabalho, com estudo, com faculdade, mas não consegue se vincular com a mulher e com os filhos. O homem consegue se vincular com tudo, menos com quem está ao lado dele, construindo com ele a casa, preparando a terra, fazendo o trabalho. Não estou dizendo que o homem é nosso inimigo, mas estamos numa sociedade capitalista em que, infelizmente, os agentes repressivos, a maioria, foram masculinos. E quando pensamos em preconceito em relação aos gays e às lésbicas, vemos que ele é muito grande, principalmente por parte dos homens.

Ainda vivemos em uma cultura muito machista, enraizada no Brasil historicamente. Os portugueses estupravam índias e negras. Hoje, o estupro é crime, mas nem sempre acontece uma punição clara. Ainda se joga a culpa nas mulheres – provocam porque andam de saia curta. O que é provocar? É não ter liberdade de andar, usar a roupa que quiser?

Nossa cultura revela um sentimento de posse que vem lá de trás, o sentimento da propriedade privada, tanto da terra como da mulher.

Participaram desta entrevista: Alfredo Boneff, Elaine Ramos, Geni Macedo, Iracema Dantas, Jamile Chequer e Marcelo Carvalho

Nota da editora: No dia 25 de setembro, semanas após a entrevista, um dos acampamentos do MTST, o Carlos Lamarca, em Osasco, foi invadido pela polícia. Todos(as) os(as) moradores(as) foram expulsos(as). As pessoas se dispersaram, mas a maioria encontrou abrigo no terreno da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, no mesmo município. Segundo Camila Alves, a invasão policial ocorreu sem mandato judicial.

Nesta edição:
  Sumário
  Violência urbana e agenda pública
  Pobreza urbana, um desafio para a democracia
  Participação e democracia – além de um jogo de palavras
  O pigmeu do bulevar enterrou o último malandro
  Habitação, miragens e prática política
  Gestão democrática e participativa: caminho para cidades socialmente justas?
  Entrevista: Zuenir Ventura
  Camila Alves, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto
  A jovem Lapa carioca