Entrevista: Zuenir Ventura

O Rio de Janeiro já teve – e ainda tem – várias caras. Uma delas é a do jornalista Zuenir Ventura. Mineiro de nascimento, criado no interior do estado do Rio, Zuenir define-se como carioca: "como todo bom mineiro".

Formado em Letras Neolatinas em 1954 pela UFRJ, logo entra para o jornalismo. Em quase meio século de profissão (começou sua carreira na Tribuna, em 1958), colocou sua pena a serviço de vários jornais cariocas como Correio da Manhã, Diário Carioca, Jornal do Brasil e O Globo, e para as revistas Senhor, O Cruzeiro, Fatos&Fotos, Visão, Veja, IstoÉ e Época. Atualmente é colunista do site no.minimo.com.br. Do alto de tanta experiência, recomenda: "O ideal seria que o leitor, o ouvinte e o espectador olhassem para a imprensa sempre com uma certa desconfiança. Não como uma instância de saber e justiça, capaz de revelar tudo o que está acontecendo".

Além de jornalista, Zuenir é escritor. É autor, entre outros, de 1968 – o ano que não terminou (publicado em 1988), Cidade partida (1994), Inveja – mal do século e O Rio de J. Carlos, com o cartunista Cássio Loredano (ambos de 1998). E também roteirista do documentário Paulinho da Viola – meu tempo é hoje (2003).

Zuenir faz parte das sucessivas levas de mineiros que migraram para a cidade e aqui foram matéria-prima essencial para a construção do ser carioca: "Costumo dizer que há uma maneira carioca de olhar que foi criada pelos mineiros. Neste grupo a gente pode incluir o Rubem Braga, que não é mineiro, mas passou por Minas". Nada mais justo que o jornalista ser o entrevistado da edição especial de Democracia Viva sobre cidades.

Seu livro Cidade partida, sobre a chacina em Vigário Geral, foi lançado em 1994. Quase dez anos depois, qual o balanço que você faz da violência urbana no Rio de Janeiro?

Zuenir – Muita coisa mudou para pior. A qualidade da situação é outra. O tráfico mantinha certos limites, mas rompeu barreiras que, há dez anos, ainda respeitava, por exemplo, o não-confronto com a polícia. Flávio Negão, o traficante entrevistado no livro, dizia que "polícia a gente não mata, polícia a gente compra". As guerras eram entre quadrilhas. Hoje, é também contra a polícia. E, sobretudo, instituições passaram a ser atacadas. Isso era inteiramente inesperado, impossível mesmo, há dez anos. Jogam bombas nos prédios públicos, em hotéis, queimam ônibus, fazem todo tipo de ação de guerrilha urbana. Isso não fazia parte da estratégia do tráfico, nem da ideologia, nem mesmo da ética. O tráfico era entendido como um negócio. Quanto mais tranqüilo fosse, melhor. Havia um código de conduta implícito que não permitia determinadas coisas.

Mas sou otimista e acho que alguma coisa melhorou. A consciência da sociedade de que estamos diante de uma tragédia urbana é algo que pode ser notado, existe uma certa percepção de que a situação não se resolverá por um passe de mágica. Um embrião de consciência na sociedade impede que achemos que basta pagar os impostos, que o Estado vai resolver tudo sozinho. Balas perdidas não escolhem cabeça, não dá mais para virar as costas. Isso já é uma mudança.

E há movimentos que comprovam essa mudança de consciência social. Sempre cito o Afro Reggae, para mim o mais emblemático. Conheci o grupo em Vigário Geral, logo depois da chacina. Não é apenas um movimento cultural, o que já seria muito. Em nossa cidade, tudo passa pela cultura, e nossa cultura é integradora, é inclusiva. É o contrário da economia.

O que não mudou é a ausência de políticas públicas. Não há um plano de segurança eficaz. A repressão continua enxugando gelo. A polícia entra nas favelas, pega meia dúzia de caras, traficantes ou não – nem interessa, porque logo são classificados como traficantes –, prende-os e a sociedade fica tranqüila: "Agora sim, estão combatendo o tráfico eficazmente". Já tivemos até gratificação-faroeste, gratificava-se o policial por prisão e por morte, estimulando mais violência.

Há problemas também no interior das polícias.

Zuenir – Sim, a promiscuidade entre Polícia e bandidos é gravíssima. Resta saber se a situação se aprofundou de verdade ou se apenas está mais visível agora. O fato é que a banda podre da Polícia é muito grande. Não acho que seja maior do que a banda boa. Mas, mesmo minoritária, a banda podre é muito ativa. É algo terrível: do bandido a gente espera bandidagem; agora, quando a Polícia, um braço da cidadania, que deveria agir em nome da paz, tem esse comportamento, fica complicado. O bandido está mascarado como autoridade, como policial. Talvez essa seja a parte mais visível e mais negativa desse balanço.

O que pensa sobre a descriminalização das drogas?

Zuenir – Tenho bem poucas certezas. Só sei que a política que temos está errada. Vejo a questão com muito cuidado e precaução, com medo até. De repente, libera-se o consumo de drogas no Rio de Janeiro e a cidade transforma-se em um grande empório para os traficantes.

O uso de drogas é um fenômeno planetário, não há soluções locais ou regionais. Não dá para combater com tanque, com repressão, dando tiros. Essa vocação das elites brasileiras para a repressão é uma herança da escravatura. Penalizar o consumidor é outra tragédia. Existem os consumidores eventuais, aqueles que consomem droga ilícita como quem bebe álcool no fim de semana. Outros são dependentes químicos e, do ponto de vista clínico, são doentes. Isso é um problema médico, a repressão não resolve. Esse debate ainda não está na sociedade. O que se vê são certezas vindas de cima e uma ignorância total da complexidade do problema.

Mas a política atual de combate ao tráfico só tem aumentado a violência.

Zuenir – Sim. E ainda existe a questão dos armamentos, especialmente grave no Rio. Há uma postura leniente em relação ao eficiente tráfico de armamentos. O traficante hoje está muito bem armado. Estão infiltrando quadros no Exército, na Aeronáutica, incentivando o serviço militar para que saiam de lá com know-how. É um quadro muito complexo, falo com cuidado porque também não tenho a solução. Mas, seja qual for, tem de passar pela integração, a inclusão social. Não são apenas palavras bonitas, do ponto de vista humanista, mas uma necessidade econômica. Precisamos de mercados, não podemos mais conviver com uma cidade partida. É preciso que se promovam mais debates com vários setores da sociedade sobre as causas da violência. Se não conhecemos o problema, como equacioná-lo, como propor soluções?

A miséria é a causa da violência?

Zuenir – A miséria é um caldo de cultura muito forte para a violência. Mas a violência é um fenômeno muito complexo para ter uma causa só. É até muito injusto colocar a culpa no miserável. Já negamos tudo a ele e ainda dizemos: "A culpa é sua, você é culpado pela violência!"? Cito, no Cidade partida, duas trajetórias, a de um bandido e a de um sociólogo. Eles têm a mesma cultura, a mesma educação, são da mesma comunidade, tudo, mas um vai para o tráfico, e o outro, para a universidade. Por outro lado, é ingenuidade acharmos que a miséria não é um elemento muito forte.

Como integrar a cidade partida?

Zuenir – O primeiro passo é mudar a visão entrópica que se tem em relação à realidade dos morros e da periferia. O tráfico representa menos de 1% da comunidade, mas olhamos a favela como se fosse uma usina de violência. E é exatamente o contrário. Uma vez li, em uma legenda de foto, em um jornal onde trabalhava, algo mais ou menos assim: "Os moradores de Copacabana não conseguiram dormir com o tiroteio do morro Pavão-Pavãozinho contra o morro do Cantagalo". E os moradores do Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo, que devem ter sofrido muito mais do que os de Copacabana? Em nosso imaginário, aquilo é outra coisa, o que vem de lá é só violência.

Há, ainda, outra visão, muito distorcida, de que toda a população de favela apóia e trabalha em favor do tráfico. Mas esquecemos que essas pessoas vivem uma ditadura. Vivemos uma há pouco tempo e sabemos como é isso. Existe o poder militar, o poder econômico e o poder político sobre as favelas. Se chega o dono do morro e manda queimar ônibus em um pseudoprotesto, faz-se o quê? Enfrentar? É um poder crudelíssimo, de julgamentos sumários. É outra hipocrisia dos daqui de baixo achar que um cidadão que mora em favela poderia enfrentar esse poder, reagir.

Mas esse mesmo poder não impediu, por exemplo, o surgimento do Afro Reggae. Ainda que não enfrentem, as comunidades estão reagindo.

Zuenir – Sim, isso revela uma série de contradições muito curiosas. Dificilmente, o tráfico impede ações sociais ou culturais no morro. E nunca ouvi relato de traficante que queira o mesmo destino para seus filhos. No livro, transcrevo algo que o traficante Flávio Negão, prevendo a morte iminente, disse para o sociólogo Caio Ferraz: "Quero que meus filhos sejam como você, e não como eu".

O Afro Reggae nunca foi conivente com o tráfico. Ao contrário, é concorrente, tira gente do negócio. O Afro Reggae conseguiu parcerias, convenceu a prefeitura a apoiá-los, mostrou que não é impossível. Mesmo nos lugares, mesmo nos espaços onde existe domínio violento e absoluto do tráfico, isso não é impeditivo.

A cultura seria um caminho?

Zuenir – Sim. Primeiro, pela sedução que ela promove. Não se trabalha com jovem, adolescente, criança, sem seduzir, sem fascinar. É preciso substituir os modelos de comportamento do tráfico por outros heróis, o jogador de futebol, o artista. O que o tráfico dá ao jovem? Poder, prestígio perante a comunidade e glória com as meninas. Dizer para o jovem que é perigoso aumenta o fascínio. É preciso substituir esse poder por oportunidade de renda, emprego, lazer, entretenimento.

Ao seu redor, o jovem só vê o tráfico como solução. É preciso recriar perspectiva de vida, um destino diferente do que teve o pai desse jovem. Quando surge a alternativa, é, em geral, bem-sucedida. Não foi só o Afro Reggae que conseguiu mostrar isso. Temos o Nós do Morro, do Vidigal. A favela da Maré também está cheia de movimentos desse tipo. Na Rocinha, entre outras coisas, existem três centros de Internet. Um dos que visitei recebe, em média, cem pessoas por dia. E as pessoas não vão lá para brincar ou jogar, vão para viajar na rede, para se comunicar. É impressionante a vitalidade dessas comunidades. Talvez essa vitalidade seja o melhor componente das comunidades pobres. Essas comunidades são um elemento de resistência, não de alienação. Resistem àquela vida cheia de problemas e de adversidades porque têm a vocação para a vida.

Cultura é a nossa vocação, de toda a cidade. E nossa cultura vem, sobretudo, dessas comunidades pobres. O que acontece no réveillon em Copacabana? São 2 milhões, 3 milhões de pessoas, e não há violência. Um jornalista francês me disse: "Mas aqui não é a capital da violência? Se houvesse um terço dessa multidão em Paris no 14 de Julho seria uma carnificina".

O seu exemplo, réveillon em Copacabana, não revela a exclusão cultural de quem não mora na Zona Sul?

Zuenir – No plano da cultura, isso não é realidade. Ao contrário, nossa cultura rompe com essa divisão territorialista. Jovens da Zona Sul estão subindo a Rocinha sexta à noite para dançar funk – uma manifestação que reúne 1 milhão e meio de pessoas nos fins de semana no Rio sem ter passado, ao menos no início, pela mídia. É um fenômeno de inclusão pela cultura. São dezenas de bailes na cidade, juntando 4 mil, 5 mil pessoas. E casos de violência, bem diferente do que se diz, não são generalizados.

No Rio, a cultura une o que a economia separa. O apartheid econômico e social pode ser rompido pela cultura. Pode-se dizer que isso é pouco, que não adianta romper pela cultura se não rompe pela economia, mas é também uma forma de pressão. A cultura também pode contaminar a economia. Há dez anos, o DJ Marlboro já dizia que o funk seria um grande mercado de consumo. À distância, parece que está tudo dominado pelo tráfico, mas não é bem assim. A resistência passa pela cultura. Nosso apartheid é social, não é nem um apartheid étnico. Nossa cultura é realmente de inclusão, de misturas.

Se nosso apartheid é social, você acredita que não temos racismo?

Zuenir – Não, tenho de explicar isso direito. O racismo aqui é muito mais perverso porque é cordial, escamoteado, não temos a divisão que havia na África do Sul e nos Estados Unidos. Não temos uma situação como nos Bálcãs. Nos Estados Unidos e na África do Sul, a questão é muito mais definida: quem é negro e quem é branco. No Brasil, temos a miscigenação, que, por um lado, é muito positiva e é um elemento de integração. Por outro, retardou muito a consciência de que temos um racismo absolutamente obsceno, indecente e muito perverso.

É equivocado pensar que, no Brasil, não há preconceito de raça. Hoje está claro – e vários estudos comprovam isso – que existe discriminação racial no ensino, na saúde... Se isso não é racismo, o que é? É racismo real disfarçado no plano pessoal, no plano da convivência, na afetuosidade que perpassa todas as nossas relações. A contradição é que, para mim, essa afetuosidade é uma coisa boa; não temos de jogar fora esse convívio de relações cordiais.

Pergunto-me por que não aconteceu, se é que não aconteceu ainda, uma explosão social. Talvez porque não exista aqui uma guetificação com potencial explosivo, pelo menos não vejo isso no horizonte da cidade, nem do país. Não me parece existir a possibilidade de uma luta racial assim como existe a de uma luta social, embora essas coisas se misturem porque são os negros que estão em piores condições sociais.

A escola de samba também é uma típica manifestação cultural que veio das comunidades pobres da cidade.

Zuenir – A escola de samba era discriminada e, depois que a classe média se apropriou dela, virou espetáculo. Mas é uma manifestação tão rica, tão forte que transborda, transcende o espaço. A Marquês de Sapucaí virou um espaço para o turista. Mas isso é muito bom também. Precisamos do turismo! E isso não impede o surgimento de outras manifestações correlatas. Há um crescimento nos últimos anos dos blocos e das bandas de bairro, das brincadeiras de rua. As pessoas passam pelas ruas cantando.

A institucionalização da escola de samba provoca muita polêmica, há pessoas que resistem. Mas há também pessoas muito lúcidas, como o Paulinho da Viola. Ele é contra uma série de coisas nas escolas – novas regras, novas relações –, mas não acha que se deva voltar atrás, algo nostálgico como "naquele tempo é que era bom". É preciso superar isso. Há uma relação dialética entre o fenômeno cultural e a indústria de cultura de massa: se faz sucesso, vem o sistema e absorve, como aconteceu também com a capoeira. A capoeira era uma coisa de bandido no passado, foi absorvida, institucionalizada, foi inevitável. Mas isso não representa a morte da capoeira, nem do samba, nem acho que vá desaguar em um movimento de exclusão.

Algumas pessoas pensam que o Rio acabou, falam como se só tivéssemos o passado. Mas de qual Rio estamos falando? O Rio das relações afetuosas, da fraternidade, da vizinhança, da celebração, esse continua vivo. Acabou o feijão da Vicentina, mas tem a peixada da Tia Surica. Ainda hoje existe a prática de fechar a rua para tocar samba, de ouvir música, de se confraternizar. Esse Rio não é o Rio do passado. Está presente. Numa sexta à noite, a sensação é que a cidade toda está cantando, nas ruas, sentada às mesas, bebendo, celebrando. É espontâneo, não é nada programado. Então, eu não temo a institucionalização.

Como você vê a política no Rio hoje?

Zuenir – A história política do Rio de Janeiro é cheia de tropeços. Sempre tivemos a mania de nos achar muito espertos, muito sabidos politicamente. E o que fizemos de besteira ao longo da nossa história... É claro que há vários álibis para isso, ficamos não sei quantos anos sem votar, sem ter educação política. Tanto que esse casal [o ex-governador Anthony Garotinho e sua esposa, atual governadora, Rosinha Matheus] viceja muito mais nos grotões de miséria, de ignorância política, de desamparo cultural total. Temos uma história muito pouco alvissareira em política, que continua nesse processo de repetição de erros que gera tragédias.

Vivemos uma falta de perspectiva justamente em um momento em que o Brasil conseguiu uma mudança, enfrentando muitos obstáculos. Não sei onde vamos parar, mas tenho a percepção de que estamos caminhando independentemente de qualquer preferência ideológico-partidária. Temos aqui, na cidade e no estado, exatamente a repetição do que há de pior na política, como na época do fisiologismo de Chagas Freitas [governador do Rio de Janeiro de 1979 a 1983]. Há uma sensação de esgarçamento do tecido social causado por essas práticas.

Hoje, temos um fisiologismo muito mais sofisticado do que o de bica da favela. Antigamente, isso era mais grosseiro e, assim, era mais fácil perceber as conseqüências ruins, o primarismo da prática. Esse primarismo agora está na concepção dos programas sociais do governo do estado. São programas assistencialistas, demagógicos, funcionam apenas para catar votos, para criar bases eleitorais, sem a menor consistência, sem o menor desdobramento. Vivemos uma zona de sombra. E o que temos em nosso horizonte, a tal zona de sombra, para mim é exatamente esse casal. Entre os desastres políticos de nosso passado político recente, este foi o maior. Espero que o casal seja um acidente de percurso a ser superado.

Mas acredito muito nessa cidade, na história dela, na capacidade que tem de dar a volta por cima. Basta olhar para o século XIX e o começo do século XX, o Rio de Janeiro vivia períodos horrorosos, havia a febre amarela, todas as mazelas em uma situação alarmante. Não havia Aids, mas havia sífilis.

E esse potencial da cidade e do estado pode surpreender e alavancar o Rio?

Zuenir – Espero que sim e que esse espírito carioca, tudo aquilo que há de melhor no Rio, prevaleça sobre bolsões de miséria desassistidos de tudo, do ponto de vista econômico, social, cultural... Não é só a miséria, é tudo junto, é a desinformação total. Se alguém diz que vai colocar uma bica d’água ou trazer o asfalto – e parece que esse recurso foi muito usado pelo casal –, isso se transforma em voto. É sobre esse atraso que o casal atua. Os votos que elegeram o casal vieram do interior, não podemos dizer que foi o Rio que deu a vitória ao casal. Não acho que a cidade compactue, tenha conivência ou culpa. Acho que foi realmente um desastre.

Você roteirizou o documentário Meu tempo é hoje, sobre Paulinho da Viola. O filme traz um passado sem nostalgia. Como nasceu essa concepção?

Zuenir – Foi uma leitura nossa, da diretora, Izabel Jaguaribe, e minha. Em uma conversa, Paulinho disse: "Não tenho saudades". Fiquei surpreso e perguntei: "Como assim? Não tem saudades?". Ele começou a explicar e, numa síntese perfeita, disse: "Não vivo do passado; o passado vive em mim". É um aparente paradoxo que nos faz pensar.

Mas é incrível. É bem evidente nele a força do passado, todos os ídolos do Paulinho são do passado. Pixinguinha, para ele, não é passado. Fez "Carinhoso" em 1917, mas sua música nos dá emoções de hoje, e não emoções do passado. Paulinho da Viola tem uma simplicidade aparente, enganosa. Ele é muito refinado, é sofisticadíssimo em tudo o que faz, em todas as composições.

Começamos a observar que tínhamos, diante de nós, para realizar esse filme, este desafio: uma pessoa que tem essa formulação teórica cheia de meandros. Ele caminha para frente carregando o que passou. Isso fica evidente em muitos momentos do filme. Um deles está na letra do samba que ele canta com a Marisa Monte, "Quando eu penso no futuro, não esqueço meu passado". Se Paulinho estivesse aqui conosco, estaria discutindo a cidade com a maior profundidade, com a maior pertinência.

No início do trabalho do documentário, começamos a perceber que Paulinho vê o tempo de uma forma peculiar, não só na música, como na vida pessoal. Um de seus programas preferidos é ir ao Centro da cidade. Vai até a farmácia mais antiga, a Farmácia Homeopática Cordeiro, se não me engano, entra no restaurante Penafiel, vai a um antigo salão de sinuca, freqüenta a loja de ferragens... Começamos a perceber que o Paulinho tenta restaurar o tempo em sua própria vida. Ele é marceneiro, tem uma marcenaria no quintal e restaura peças de madeira. E faz isso também com carros. O filme mostra isso, é a restauração de automóveis velhos. Ele tem um cemitério de automóveis que ele fica consertando. Tem um que está lá há 20 anos.

Não queríamos fazer um filme biográfico. Em vez disso, focamos no tema do tempo que está presente, de muitas maneiras, em todas as músicas dele. E tem todas as metáforas de tempo, do tempo que passa, da espera, da saudade. E tem a vida dele, um cara que gostaria, como ele próprio diz, de ter tempo para não fazer nada. O tempo de Paulinho da Viola é aquele que leva três, quatro horas para tomar o café da manhã porque está lendo o jornal.

No filme, Paulinho aparece também como alguém que cruza as fronteiras geográficas, indo da Zona Sul, onde nasceu, à Zona Norte, à Baixada luminense, no pagode na casa de Zeca Pagodinho.

Zuenir – Paulinho tem essa vocação de ponte, ele é a ligação entre muitas coisas, entre as duas metades da cidade partida, a cidade de lá e a cidade de cá; entre o erudito e o popular. É capaz de compor "Sinal fechado" – com todos aqueles acordes e harmonias sofisticadíssimas – e capaz de ser popular, de compor uma das músicas mais cantadas e conhecidas pela cidade, "Foi um rio que passou em minha vida". Ele faz todos esses cruzamentos. Vai à Velha Guarda da Portela e pede a bênção aos compositores e pastoras, mesmo sendo um padrinho da escola. Ele consegue romper com todas essas barreiras.

É um bom paradigma para um Rio de Janeiro possível, não?

Zuenir – Sim. Com exemplos como o dele, essa integração cultural é possível. Há mais gente que segura essa bandeira. Quando se ouve um samba do Nelson Cavaquinho, do Cartola, percebe-se a sofisticação poética, coisas lindas escritas por alguém que viveu na favela, como "tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor". Isso foi composto lá no meio da miséria. Realmente, a manifestação cultural organiza o social, ela não se instaura sozinha, vem carregada de outras possibilidades de ação, uma ordenação de mundo.

A imprensa também tem sua parcela de culpa pela cidade partida?

Zuenir – Quando fui a Vigário Geral pela primeira vez, fui imbuído de todos os estereótipos que nós mesmos tínhamos criado – nós, a imprensa. O jornalismo policial era pautado pelos policiais, que diziam "Fulano de Tal é o bandido número um". A extorsão policial, que todo mundo conhece como mineira, foi criada assim. Um bandido pé-de-chinelo, que não valia nada em termos de extorsão, no dia seguinte à publicação da matéria passava a valer muito! Isso valorizava a mineira do policial. Para que acontecesse essa combinação entre policiais e jornalistas, Polícia pautando jornal, precisava-se trabalhar com estereótipos. Um dos estereótipos é mesmo o de que aquilo lá é outro mundo, um mundo de violência.

Hoje, há consciência de que é preciso, primeiro, se pautar, conhecer a realidade, subir o morro. Mas isso nem sempre é feito. E é preciso considerar também a avalanche de informações que, hoje, nos soterra. O que nos apresentam da realidade atropela a possibilidade de uma reflexão mais aprofundada. A violência desmedida, que acontecia excepcionalmente, se banalizou de tal maneira que não há mais tempo nem condições de se trabalhar como se deveria. Isso angustia os jornalistas. Não acho que o jornalismo esteja virando as costas para a situação. Essa condição ruim impede um jornalismo de maior reflexão, de maior atenção às causas, que tenta captar a complexidade de situações como esta em que estamos vivendo.

Muitas vezes essa superficialidade é resultado também de uma impossibilidade de entender o que está acontecendo. O fato é que o mundo, não só o Brasil, não só a cidade do Rio de Janeiro, mudou muito. Ficou muito mais difícil. Quando se tinha a ditadura, por exemplo, a realidade estava bem matizada, maniqueísta mesmo, de um lado estava o bem e do outro se tinha o mal. Isso facilitava a compreensão da realidade.

Não caberia um papel mais ativo?

Zuenir – A imprensa faz parte da nossa sociedade, não está acima do bem e do mal, expressa a sociedade na qual está instalada. Também acho perigosa a visão de que a imprensa seria o quarto poder e de que ela saberia tudo. A imprensa comete erros e é preciso que admitamos isso. O ideal seria que o leitor, o ouvinte e o espectador olhassem para a imprensa sempre com uma certa desconfiança. Não como uma instância de saber e justiça, capaz de revelar tudo o que está acontecendo.

Às vezes, esperamos da imprensa aquilo que não é seu papel. Na década de 90, por exemplo, a imprensa substituiu algumas instituições que saíram da ditadura muito fragilizadas. A Polícia é uma delas, a Justiça é outra. Passamos a investigar e fizemos isso até com sucesso – tanto que isso subiu um pouco à cabeça dos jornalistas. Todo aquele jornalismo de inventário da década de 90 revelou o que a censura não deixou aparecer. Foi uma coisa meritória. Só que, de repente, a imprensa passou a achar que podia investigar. E aí a achar também que podia julgar. O jornalista acabava sendo advogado de acusação e o juiz; isso fez muito mal à imprensa. Jovens repórteres chegavam às redações querendo fazer denúncias, reportagens investigativas; queriam fazer julgamentos. Eram donos da verdade.

Hoje, estamos em um momento de reflexão e autocrítica. Fomos muito arrogantes. Isso, às vezes, é inevitável porque a imprensa detém o poder da informação. Eu digo para você o que está acontecendo e, por isso, acabo me sentindo muito poderoso. Esse talvez seja o grande pecado da imprensa.

As condições de trabalho nas redações também mudaram muito, não?

Zuenir – O jornalismo está vivendo uma crise. O repórter de TV, por exemplo, tem de fazer duas, três matérias por dia. Debruçar-se em uma série complexa demanda tempo e preparação. Há uma série de fatores que dá essa sensação de que a imprensa não está cumprindo exatamente seu papel. Quero admitir isso, até como possibilidade de discussão, de autocrítica. O perigo é achar, e muitos setores na sociedade acham, que a culpa é toda da imprensa. Não quero vitimizar os jornais, mas, se acharmos isso, vamos acreditar que a solução é endireitar a imprensa e, assim, o mundo estará resolvido. Reclamam da imprensa porque ela cumpre o papel do emissário da má notícia. É aquela história dos reis que mandavam matar o emissário da desgraça depois que sabiam do acontecimento.

De certa maneira, é até verdade que temos esse desvio de conduta, um certo fascínio pelas coisas ruins. Mas não acho que a imprensa esteja pior do que outras áreas da sociedade ou pior do que o país. Embora saibamos que nem tudo está bem com o jornalismo e que é preciso melhorá-lo.

Confesso que fico cheio de dedos para falar da imprensa. Pode parecer que estou fazendo uma defesa corporativa, quando, na verdade, sou muito crítico. Principalmente em relação a nossa arrogância, a essa compulsão de achar que se pode invadir a privacidade de alguém, que se tem esse direito em nome da necessidade de informar. Sobre essas questões, precisamos de uma discussão ética grave.

Então, não é possível compatibilizar as condições atuais da imprensa com um jornalismo analítico?

Zuenir – Costumo dizer que o melhor jornalismo, hoje, no Brasil seria mais explicativo do que informativo. Essa é uma das diferenças entre o momento em que vivemos e a época da ditadura. Havia uma carência de informação, não se podia informar porque havia uma censura. Hoje, há excesso de informação. E informação demais vira ruído. Estou falando como leitor. Termino de assistir ao Jornal Nacional, de ler os jornais em papel e de navegar pela Internet e fico bombardeado de informações e meio anestesiado. Meu anseio é que alguém me diga o que está acontecendo.

Por exemplo, vivemos momentos de verdadeiro bombardeio de informação com a Guerra do Iraque, com notícias vindas pela Internet, rádio, TV e imprensa escrita. E as pessoas buscavam explicação, não mais a informação, quantas bombas tinham caído em Bagdá etc. Esse é talvez um drama que está acontecendo, há uma espécie de censura nesse processo. Ao contrário da censura explícita, essas informações anulam umas às outras, não existe mais tempo para a reflexão.

Os fatos estão atropelando mesmo. Casos de corrupção e escândalos de todo tipo, como o de Sérgio Naya ou o do propinoduto, a imprensa não consegue nem acompanhar porque, quando se descobre um, já está aparecendo outro. Nem é culpa da imprensa. No caso do propinoduto, por exemplo, os jornais acompanharam durante meses. Mas o excesso de informação acaba gerando um fastio. Há uma hora em que o sujeito fala: "Não quero mais informação, quero entender o mundo em que estou vivendo". A imprensa escrita não está sabendo fazer isso.

Qual a importância dos mineiros para a constituição da imagem do Rio de Janeiro? A lista é enorme: Carlos Drummond de Andrade, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Ziraldo, você...

Zuenir – Eu sou mineiro e fui criado em Nova Friburgo, aqui no estado do Rio. Tenho tríplice nacionalidade: nasci em Minas Gerais, em Além Paraíba, fui criado em Friburgo e sou carioca – como todo bom mineiro. Costumo dizer que há uma maneira carioca de olhar que foi criada pelos mineiros. Nesse grupo, podemos incluir o Rubem Braga, que não é mineiro, mas passou por Minas. O carioca foi sempre muito seduzido pelo olhar do estrangeiro, e nós cariocas ficamos vaidosos, sim, quando nos elogiam. Temos esse lado bairrista. Até podemos falar mal do Rio de Janeiro, mas imagina se há um gringo ao lado e começa a falar mal...

Algumas gerações, de 1930, 1940, 1950, ensinaram a olhar o Rio de Janeiro pelo olhar deles. Não era o olhar que via as coisas óbvias, os grandes acontecimentos. Era a atenção para o insignificante, para o detalhe, aquela coisa que a imprensa não via. Era o que o Rubem Braga chamava de "olhar distraído". Distraído, sim, mas cheio de atenção, era distraído dos grandes acontecimentos. É como se estivesse acontecendo aqui ao lado uma coisa muito grande, barulhenta, e nosso olhar estivesse desviado para uma outra realidade. Isso mudou até o comportamento da imprensa.

Comecei na imprensa na década de 50. A imprensa era, como ainda é hoje, atraída pelo grande acontecimento. Mas, às vezes, o grande acontecimento não é o acontecimento grande. Esse olhar se desviava, saía dali, com o talento e a genialidade de um Rubem Braga, que, por exemplo, olhava o mar e via o homem nadando e fazia uma crônica sobre isso, ou sobre a amendoeira em frente à portaria do prédio onde morava, sobre a pitangueira...

Foi uma renovação no jornalismo, um pouco como a Semana de Arte Moderna de 1922 fez com a poesia. O que era considerado insignificante, na verdade, e essa foi a lição, tinha um grande significado poético e existencial.

Seria o necessário olhar de província que desvelaria o Rio para os cariocas?

Zuenir – Sim, partindo do princípio de que o particular é exatamente o universal. Não é a coisa paroquial do provincianismo, estou pensando no particular mesmo, que tem a ver com o ser humano. Afinal, somos universais porque somos particulares.

O Rio tem essa capacidade de condensação de significados, o Rio é uma cidade muito simbólica. Basta dizer que nossos símbolos estão na própria natureza, as praias, os morros. Cidade em que o padroeiro é o próprio símbolo do povo. Nada mais parecido com o brasileiro – e com o carioca, em particular – do que São Sebastião recebendo todas aquelas flechas e com um ar de "não estou nem aí para isso", em uma atitude meio zen, até meio estóica. Escrevi uma crônica sobre São Sebastião e terminei dizendo que ele era o padroeiro dos gays. Olha, o que eu recebi de reação dizendo que era um desrespeito à Igreja... Eu disse: "Veja bem, não queria desrespeitar...". Mas não podia perder a piada. O próprio santo, sendo carioca, faria essa piada também.

Participaram desta entrevista: Cândido Grzybowski, Iracema Dantas e Marcelo Carvalho.

Nesta edição:
  Sumário
  Violência urbana e agenda pública
  Pobreza urbana, um desafio para a democracia
  Participação e democracia – além de um jogo de palavras
  O pigmeu do bulevar enterrou o último malandro
  Habitação, miragens e prática política
  Gestão democrática e participativa: caminho para cidades socialmente justas?
  Entrevista: Zuenir Ventura
  Camila Alves, Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto
  A jovem Lapa carioca